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    segueapororoka
  • 26 de jan.
  • 7 min de leitura

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Na manhã do dia 26 de janeiro de 2026, a rotina no prédio da Secretaria de Educação do Pará, na Avenida Augusto Montenegro, em Belém, era amena. Portas abertas, corredores livres e ar-condicionado funcionando. Nem parecia que ali, exatamente um ano antes, indígenas, quilombolas e professores dormiam no chão, organizavam assembleias e interrompiam a lógica silenciosa de um poder acostumado a decidir sem escutar.


Há um ano, a Seduc foi ocupada por 31 dias de mobilização contra a Lei 10.820/2024 e contra um modelo de governo que insiste em formular políticas públicas sem diálogo com os grupos afetados. O resultado da ocupação não foi uma vitória plena, foi contenção.


Projeção na fachada da Seduc reforça a luta dos povos indígenas pelo direito de ter suas vozes ouvidas e respeitadas. Foto: Kauê Bentes
Projeção na fachada da Seduc reforça a luta dos povos indígenas pelo direito de ter suas vozes ouvidas e respeitadas. Foto: Kauê Bentes

Como resume a liderança indígena Auricélia Arapiuns, do Baixo Tapajós: “Conseguimos adiar muitos problemas. Conseguimos fazer com que se discuta e que seja criada uma lei de educação escolar indígena para o estado do Pará.”


Auricélia foi uma das vozes mais firmes da ocupação. Não se calou diante das pressões e se tornou uma das principais referências do movimento, reconhecida pela coragem de enfrentar o governo e sustentar a luta em nome dos povos da floresta.


Auricélia Arapiuns foi uma das principais vozes indígenas durante a ocupação dos indígenas no prédio da Seduc. Foto: Rodrigo Correia
Auricélia Arapiuns foi uma das principais vozes indígenas durante a ocupação dos indígenas no prédio da Seduc. Foto: Rodrigo Correia

Em uma só canetada, a Lei 10.820 revogava uma série de dispositivos legais que garantia os direitos dos professores conquistados ao longo de décadas, assim como a legislação que definia regras para o SOME e o SOMEI – o Sistema Modular de Educação Indígena. Com mais de um mês de ocupação e uma crise de imagem que só crescia e não conseguia ser contornada pela máquina estatal – aqui derrotada pela comunicação indígena, diga-se de passagem-, o governo voltou atrás e enviou a revogação da Lei 10.820, aprovada pela Alepa. Voltou-se ao que era, mas as promessas de melhorias, na época usadas para aprimorar a narrativa oficial, ficaram pelo caminho.


Educação para indígenas, sem indígenas


A principal promessa deixada pelo governo após o fim da ocupação foi justamente a construção de uma lei estadual de educação escolar indígena. Mas a proposta enviada à Assembleia Legislativa, onde está parada, chegou sem cumprir um requisito básico: a consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas, prevista na Constituição e em tratados internacionais. No oeste do Pará, nenhuma consulta ocorreu. As próprias lideranças que estiveram na linha de frente da ocupação foram excluídas do processo. “Nós que estávamos na ocupação da Seduc não fizemos parte do grupo de trabalho que foi criado para construir essa proposta de lei. Então ficamos de fora”, relata Auricélia.


Além da ausência de escuta, o conteúdo do projeto também preocupa. Segundo as lideranças indígenas, a proposta ignora os saberes tradicionais ao exigir apenas critérios acadêmicos para docentes indígenas, além de transferir decisões centrais ao Conselho Estadual de Educação, afastando os próprios povos da definição de sua política educacional.


Indígenas se mobilizam em frente à Assembleia Legislativa do Estado do Pará. Foto: Mídia Tiarg.
Indígenas se mobilizam em frente à Assembleia Legislativa do Estado do Pará. Foto: Mídia Tiarg.

Auricélia explica que isso fere diretamente a autonomia indígena e que um ano depois, a luta continua. “A gente só quer que o Estado cumpra a Constituição. O direito à educação escolar indígena diferenciada, bilíngue, culturalmente adequada, com autonomia. Isso já está garantido em lei. Só precisa ser respeitado.”


O que o governo não entrega, as comunidades tradicionais constroem sozinhas


A professora Mila Correa atua há 23 anos na educação indígena no Baixo Tapajós e acompanha de perto a ausência do Estado. Sua rotina não se dá em uma única escola, mas em várias comunidades, cada uma com uma realidade diferente, mas quase todas marcadas pela falta de estrutura básica.


Ela conta que em muitas aldeias, a escola simplesmente não existe como prédio público. O espaço de aprendizagem precisa ser erguido pelos próprios moradores. “Ainda temos aldeias que precisam de escola padrão. O que temos hoje são malocas construídas pelos próprios alunos, professores e lideranças”, resume.


Segundo a professora Mila Correa, que atua no Baixo Tapajós, muitas escolas ainda precisam de infraestrutura básica para funcionar. Foto: Conselho Indígena Tupinambá
Segundo a professora Mila Correa, que atua no Baixo Tapajós, muitas escolas ainda precisam de infraestrutura básica para funcionar. Foto: Conselho Indígena Tupinambá

Algumas salas são cobertas de palha, sujeitas a vazamentos no período de chuva. E até a palha, antes abundante, começa a faltar. “Quando chove, tem vazamento. E a palha está ficando escassa por conta do desmatamento”, denuncia a educadora.


Há também os impactos pedagógicos, pois o ensino ofertado nas comunidades é majoritariamente modular, com longos períodos sem professor em sala e ir até a escola é outro obstáculo para os alunos indígenas. Sem transporte regular, muitos percorrem longas distâncias a pé ou atravessam rios diariamente. “Tem aluno que caminha duas horas. Outros atravessam o rio remando para chegar à escola”, conta a professora Mila Correa.


Quando a escola não existe dentro do território, o caminho imposto é a cidade


E com ela vêm impactos profundos: racismo, ruptura cultural, perda da língua e aumento da vulnerabilidade social. Apesar de reunir a maior concentração de povos indígenas no oeste do Pará, Santarém não possui nenhuma escola indígena estadual. Segundo dados do Censo 2022, quase 17 mil pessoas se declararam indígenas no município. No entanto, as crianças das comunidades tradicionais seguem matriculadas em escolas do campo. 


A educadora conta que esse deslocamento para a cidade é um processo doloroso e desigual. Segundo ela, jovens chegam sem rede de apoio, sem estrutura financeira, distantes da família e expostos a situações de vulnerabilidade. “Na cidade muitos não têm parentes, não têm casa de apoio. Manter um estudante ali exige dinheiro, estrutura, e a gente sabe que não é fácil.”


Ainda assim, muitos precisam atravessar esse limite. Saem dos territórios para disputar espaço em uma cidade que nunca foi pensada para recebê-los. É nesse caminho que a história de Thaigon Arapiuns começou a ser escrita há 1 ano.


Da ocupação à universidade: a travessia de Thaigon Arapiuns


Foram três dias de viagem de barco até Belém. Rede estendida, mochila com o básico e um celular nas mãos para registrar o que viria a ser um divisor de águas. Em janeiro de 2025, Thaigon Arapiuns saiu do território no Baixo Tapajós e atravessou rios ao lado de cerca de cem parentes, professores e lideranças para ocupar o prédio da Secretaria de Educação do Pará. Pela primeira vez, atravessava aquele portão como manifestante. Um ano depois, em janeiro de 2026, cruza outro: o da Universidade Federal do Pará, agora como estudante regularmente matriculado no curso de cinema.


A travessia entre esses dois portões não é simbólica apenas para ele. Resume um processo coletivo de resistência, aprendizado e disputa por direitos básicos. A ocupação da Seduc não foi um episódio isolado em sua trajetória.


A ida para Belém foi decidida em meio a uma sequência de reuniões emergenciais entre lideranças. “Quando a gente soube que a lei tinha sido aprovada, não dava para ficar parado”, lembra. A viagem foi organizada em poucos dias. Ao chegarem à capital, passaram a noite em um ponto de apoio sindical. No dia seguinte, ocuparam o prédio da Secretaria.


O impacto da experiência, segundo ele, foi profundo. “A gente não sai o mesmo. Volta com outra visão, outros conhecimentos, outro entendimento da luta”, afirma. Para Thaigon, a convivência durante a ocupação, com mulheres, crianças, lideranças mais velhas e jovens de diferentes territórios foi tão formativa quanto qualquer sala de aula. “Ali a gente começa a entender por que os mais velhos nunca deixaram de lutar”, diz.


Sua própria trajetória escolar ajuda a compreender a precariedade denunciada pelos professores indígenas. Parte da infância foi vivida na aldeia. A escola existia, mas funcionava com limitações: ensino modular irregular, ausência de professores em algumas disciplinas e merenda insuficiente. “Era muito básico. Às vezes a gente ia em casa buscar farinha para complementar a merenda”, recorda.


Quando mudou para Santarém, surgiram outros desafios. O preconceito apareceu especialmente dentro da escola. “Quando eu cheguei, ouvi coisas que me fizeram perceber o quanto a gente é tratado diferente”, conta. Mesmo assim, diz que nunca cogitou esconder sua identidade. “Negar quem eu sou, jamais. Isso nunca foi opção.”


Thaigon Arapiuns. Uma jornada de luta pela educação e por dignidade. Foto: Lilian Cristina
Thaigon Arapiuns. Uma jornada de luta pela educação e por dignidade. Foto: Lilian Cristina

Enquanto ocupava a Seduc para impedir o avanço de uma lei que aprofundaria a precarização da educação, Thaigon também fazia vestibular. A aprovação no curso de cinema da UFPA veio poucos dias após o fim da mobilização. Desde então, ele vive em Belém.


O acesso à universidade, no entanto, não significa o fim das barreiras. Para ele, a UFPA, assim como a maioria das instituições brasileiras, ainda não está preparada para acolher plenamente estudantes indígenas. “Tem muito racismo estrutural. Nenhuma universidade está pronta para receber nossos corpos, nossos saberes, nossa forma de existir”, afirma.


Ainda assim, atravessar diariamente o portão da universidade carrega um peso coletivo. Não se trata apenas de conquista individual, mas de continuidade da luta iniciada nos territórios. “Se tu entra na universidade através da luta e se afasta da luta porque tem que estudar, não faz sentido para ti uma universidade, sabe? Quantas lideranças não queriam estar usufruindo disso que eu estou usufruindo agora? Então, eu acho que nada mais justo que honrar isso, respeitar e dar um retorno para o território”, afirma a liderança indígena jovem do Baixo Tapajós.


Um ano após a ocupação, o levante das comunidades tradicionais não foi apenas um ato de protesto, mas sim um gesto de responsabilidade com as próximas gerações. A aprovação de Thaigon não encerra a luta, mas revela que cada geração que se junta à resistência consegue ir mais longe. O ensinamento que fica é não recuar diante das ameaças de retrocesso.


Se uma nova ocupação fosse necessária, ele afirma que estaria novamente entre os primeiros. Não por desejo de confronto, mas pela ausência de alternativa diante da negligência do Estado. “A gente não quer estar ocupando prédio. A gente quer estar no território, cuidando da nossa vida. Mas, se for necessário, a gente ocupa de novo.”

 
 

Um ano depois, a ocupação ainda ecoa para os povos da floresta

Um ano após a ocupação da Seduc pelos povos indígenas em luta por seus direitos, os protagonistas deste momento refletem sobre a realidade e os resultados da mobilização.

26 de janeiro de 2026

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Na manhã do dia 26 de janeiro de 2026, a rotina no prédio da Secretaria de Educação do Pará, na Avenida Augusto Montenegro, em Belém, era amena. Portas abertas, corredores livres e ar-condicionado funcionando. Nem parecia que ali, exatamente um ano antes, indígenas, quilombolas e professores dormiam no chão, organizavam assembleias e interrompiam a lógica silenciosa de um poder acostumado a decidir sem escutar.


Há um ano, a Seduc foi ocupada por 31 dias de mobilização contra a Lei 10.820/2024 e contra um modelo de governo que insiste em formular políticas públicas sem diálogo com os grupos afetados. O resultado da ocupação não foi uma vitória plena, foi contenção.


Projeção na fachada da Seduc reforça a luta dos povos indígenas pelo direito de ter suas vozes ouvidas e respeitadas. Foto: Kauê Bentes
Projeção na fachada da Seduc reforça a luta dos povos indígenas pelo direito de ter suas vozes ouvidas e respeitadas. Foto: Kauê Bentes

Como resume a liderança indígena Auricélia Arapiuns, do Baixo Tapajós: “Conseguimos adiar muitos problemas. Conseguimos fazer com que se discuta e que seja criada uma lei de educação escolar indígena para o estado do Pará.”


Auricélia foi uma das vozes mais firmes da ocupação. Não se calou diante das pressões e se tornou uma das principais referências do movimento, reconhecida pela coragem de enfrentar o governo e sustentar a luta em nome dos povos da floresta.


Auricélia Arapiuns foi uma das principais vozes indígenas durante a ocupação dos indígenas no prédio da Seduc. Foto: Rodrigo Correia
Auricélia Arapiuns foi uma das principais vozes indígenas durante a ocupação dos indígenas no prédio da Seduc. Foto: Rodrigo Correia

Em uma só canetada, a Lei 10.820 revogava uma série de dispositivos legais que garantia os direitos dos professores conquistados ao longo de décadas, assim como a legislação que definia regras para o SOME e o SOMEI – o Sistema Modular de Educação Indígena. Com mais de um mês de ocupação e uma crise de imagem que só crescia e não conseguia ser contornada pela máquina estatal – aqui derrotada pela comunicação indígena, diga-se de passagem-, o governo voltou atrás e enviou a revogação da Lei 10.820, aprovada pela Alepa. Voltou-se ao que era, mas as promessas de melhorias, na época usadas para aprimorar a narrativa oficial, ficaram pelo caminho.


Educação para indígenas, sem indígenas


A principal promessa deixada pelo governo após o fim da ocupação foi justamente a construção de uma lei estadual de educação escolar indígena. Mas a proposta enviada à Assembleia Legislativa, onde está parada, chegou sem cumprir um requisito básico: a consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas, prevista na Constituição e em tratados internacionais. No oeste do Pará, nenhuma consulta ocorreu. As próprias lideranças que estiveram na linha de frente da ocupação foram excluídas do processo. “Nós que estávamos na ocupação da Seduc não fizemos parte do grupo de trabalho que foi criado para construir essa proposta de lei. Então ficamos de fora”, relata Auricélia.


Além da ausência de escuta, o conteúdo do projeto também preocupa. Segundo as lideranças indígenas, a proposta ignora os saberes tradicionais ao exigir apenas critérios acadêmicos para docentes indígenas, além de transferir decisões centrais ao Conselho Estadual de Educação, afastando os próprios povos da definição de sua política educacional.


Indígenas se mobilizam em frente à Assembleia Legislativa do Estado do Pará. Foto: Mídia Tiarg.
Indígenas se mobilizam em frente à Assembleia Legislativa do Estado do Pará. Foto: Mídia Tiarg.

Auricélia explica que isso fere diretamente a autonomia indígena e que um ano depois, a luta continua. “A gente só quer que o Estado cumpra a Constituição. O direito à educação escolar indígena diferenciada, bilíngue, culturalmente adequada, com autonomia. Isso já está garantido em lei. Só precisa ser respeitado.”


O que o governo não entrega, as comunidades tradicionais constroem sozinhas


A professora Mila Correa atua há 23 anos na educação indígena no Baixo Tapajós e acompanha de perto a ausência do Estado. Sua rotina não se dá em uma única escola, mas em várias comunidades, cada uma com uma realidade diferente, mas quase todas marcadas pela falta de estrutura básica.


Ela conta que em muitas aldeias, a escola simplesmente não existe como prédio público. O espaço de aprendizagem precisa ser erguido pelos próprios moradores. “Ainda temos aldeias que precisam de escola padrão. O que temos hoje são malocas construídas pelos próprios alunos, professores e lideranças”, resume.


Segundo a professora Mila Correa, que atua no Baixo Tapajós, muitas escolas ainda precisam de infraestrutura básica para funcionar. Foto: Conselho Indígena Tupinambá
Segundo a professora Mila Correa, que atua no Baixo Tapajós, muitas escolas ainda precisam de infraestrutura básica para funcionar. Foto: Conselho Indígena Tupinambá

Algumas salas são cobertas de palha, sujeitas a vazamentos no período de chuva. E até a palha, antes abundante, começa a faltar. “Quando chove, tem vazamento. E a palha está ficando escassa por conta do desmatamento”, denuncia a educadora.


Há também os impactos pedagógicos, pois o ensino ofertado nas comunidades é majoritariamente modular, com longos períodos sem professor em sala e ir até a escola é outro obstáculo para os alunos indígenas. Sem transporte regular, muitos percorrem longas distâncias a pé ou atravessam rios diariamente. “Tem aluno que caminha duas horas. Outros atravessam o rio remando para chegar à escola”, conta a professora Mila Correa.


Quando a escola não existe dentro do território, o caminho imposto é a cidade


E com ela vêm impactos profundos: racismo, ruptura cultural, perda da língua e aumento da vulnerabilidade social. Apesar de reunir a maior concentração de povos indígenas no oeste do Pará, Santarém não possui nenhuma escola indígena estadual. Segundo dados do Censo 2022, quase 17 mil pessoas se declararam indígenas no município. No entanto, as crianças das comunidades tradicionais seguem matriculadas em escolas do campo. 


A educadora conta que esse deslocamento para a cidade é um processo doloroso e desigual. Segundo ela, jovens chegam sem rede de apoio, sem estrutura financeira, distantes da família e expostos a situações de vulnerabilidade. “Na cidade muitos não têm parentes, não têm casa de apoio. Manter um estudante ali exige dinheiro, estrutura, e a gente sabe que não é fácil.”


Ainda assim, muitos precisam atravessar esse limite. Saem dos territórios para disputar espaço em uma cidade que nunca foi pensada para recebê-los. É nesse caminho que a história de Thaigon Arapiuns começou a ser escrita há 1 ano.


Da ocupação à universidade: a travessia de Thaigon Arapiuns


Foram três dias de viagem de barco até Belém. Rede estendida, mochila com o básico e um celular nas mãos para registrar o que viria a ser um divisor de águas. Em janeiro de 2025, Thaigon Arapiuns saiu do território no Baixo Tapajós e atravessou rios ao lado de cerca de cem parentes, professores e lideranças para ocupar o prédio da Secretaria de Educação do Pará. Pela primeira vez, atravessava aquele portão como manifestante. Um ano depois, em janeiro de 2026, cruza outro: o da Universidade Federal do Pará, agora como estudante regularmente matriculado no curso de cinema.


A travessia entre esses dois portões não é simbólica apenas para ele. Resume um processo coletivo de resistência, aprendizado e disputa por direitos básicos. A ocupação da Seduc não foi um episódio isolado em sua trajetória.


A ida para Belém foi decidida em meio a uma sequência de reuniões emergenciais entre lideranças. “Quando a gente soube que a lei tinha sido aprovada, não dava para ficar parado”, lembra. A viagem foi organizada em poucos dias. Ao chegarem à capital, passaram a noite em um ponto de apoio sindical. No dia seguinte, ocuparam o prédio da Secretaria.


O impacto da experiência, segundo ele, foi profundo. “A gente não sai o mesmo. Volta com outra visão, outros conhecimentos, outro entendimento da luta”, afirma. Para Thaigon, a convivência durante a ocupação, com mulheres, crianças, lideranças mais velhas e jovens de diferentes territórios foi tão formativa quanto qualquer sala de aula. “Ali a gente começa a entender por que os mais velhos nunca deixaram de lutar”, diz.


Sua própria trajetória escolar ajuda a compreender a precariedade denunciada pelos professores indígenas. Parte da infância foi vivida na aldeia. A escola existia, mas funcionava com limitações: ensino modular irregular, ausência de professores em algumas disciplinas e merenda insuficiente. “Era muito básico. Às vezes a gente ia em casa buscar farinha para complementar a merenda”, recorda.


Quando mudou para Santarém, surgiram outros desafios. O preconceito apareceu especialmente dentro da escola. “Quando eu cheguei, ouvi coisas que me fizeram perceber o quanto a gente é tratado diferente”, conta. Mesmo assim, diz que nunca cogitou esconder sua identidade. “Negar quem eu sou, jamais. Isso nunca foi opção.”


Thaigon Arapiuns. Uma jornada de luta pela educação e por dignidade. Foto: Lilian Cristina
Thaigon Arapiuns. Uma jornada de luta pela educação e por dignidade. Foto: Lilian Cristina

Enquanto ocupava a Seduc para impedir o avanço de uma lei que aprofundaria a precarização da educação, Thaigon também fazia vestibular. A aprovação no curso de cinema da UFPA veio poucos dias após o fim da mobilização. Desde então, ele vive em Belém.


O acesso à universidade, no entanto, não significa o fim das barreiras. Para ele, a UFPA, assim como a maioria das instituições brasileiras, ainda não está preparada para acolher plenamente estudantes indígenas. “Tem muito racismo estrutural. Nenhuma universidade está pronta para receber nossos corpos, nossos saberes, nossa forma de existir”, afirma.


Ainda assim, atravessar diariamente o portão da universidade carrega um peso coletivo. Não se trata apenas de conquista individual, mas de continuidade da luta iniciada nos territórios. “Se tu entra na universidade através da luta e se afasta da luta porque tem que estudar, não faz sentido para ti uma universidade, sabe? Quantas lideranças não queriam estar usufruindo disso que eu estou usufruindo agora? Então, eu acho que nada mais justo que honrar isso, respeitar e dar um retorno para o território”, afirma a liderança indígena jovem do Baixo Tapajós.


Um ano após a ocupação, o levante das comunidades tradicionais não foi apenas um ato de protesto, mas sim um gesto de responsabilidade com as próximas gerações. A aprovação de Thaigon não encerra a luta, mas revela que cada geração que se junta à resistência consegue ir mais longe. O ensinamento que fica é não recuar diante das ameaças de retrocesso.


Se uma nova ocupação fosse necessária, ele afirma que estaria novamente entre os primeiros. Não por desejo de confronto, mas pela ausência de alternativa diante da negligência do Estado. “A gente não quer estar ocupando prédio. A gente quer estar no território, cuidando da nossa vida. Mas, se for necessário, a gente ocupa de novo.”

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