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    segueapororoka
  • há 6 dias
  • 4 min de leitura

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Por séculos, a avenida que leva ao Quilombo do Abacatal foi de chão de terra batida. Durante o inverno, era tomada pela lama; no verão, pela poeira. Em 2025, ela finalmente recebeu asfalto, uma das compensações após a construção da Avenida Liberdade, obra que cortou o entorno do território e reacendeu um conflito antigo entre o quilombo e o poder público. 


Mas o asfalto chegou apenas até o portão do quilombo. Do lado de dentro, a decisão da comunidade foi de não pavimentar as ruas, avaliando que o asfalto amplia os riscos ao facilitar o acesso de pessoas externas, em um cenário marcado pela ausência de políticas públicas de segurança, além do aumento da pressão imobiliária  que ameaça invadir o território.


O portão virou resistência. E é a partir deste limite, onde o Estado chega apenas pela metade, é que nasce o Instituto Mbaraká Ókùta, fundado por Vanuza Cardoso, uma das  lideranças do Abacatal.



Para Vanuza Cardoso, a criação do Instituto Quilombola Mbaraká Òkutá abre novos caminhos para a defesa do território do Abacatal. Foto: Elielson Almeida
Para Vanuza Cardoso, a criação do Instituto Quilombola Mbaraká Òkutá abre novos caminhos para a defesa do território do Abacatal. Foto: Elielson Almeida

Filha de Raimundo Cardoso, uma das principais referências da luta quilombola no Pará, Vanuza cresceu acompanhando assembleias, enfrentamentos com o Estado e disputas por serviços básicos. Hoje, ela preside o Instituto recém-inaugurado pela comunidade. “É sonho e é urgência. A gente sempre defendeu a vida dentro do território. Agora, precisamos defender também fora dele. Porque é lá que as decisões são tomadas”, conta.


Ao longo de sua história, o quilombo do Abacatal precisou de muita luta para garantir escola, posto de saúde, reconhecimento oficial e permanência na terra diante de sucessivos projetos do chamado “desenvolvimento” que ignoram sua existência enquanto terra ancestral.


Para Vanuza, o novo Instituto não substitui a associação comunitária nem disputa protagonismo interno. Surge porque o Estado opera por outra lógica. “A estrutura formal exige CNPJ, burocracia, presença em editais, mesas de negociação. Exige forma jurídica para reconhecer a existência política. É uma forma de ocupar os espaços onde o Estado não está chegando e chegar lá de forma organizada para cobrar. Levar a voz do Abacatal para todos os espaços”, disse.



Raimundo Cardoso. Uma história de luta por direitos básicos para os moradores do quilombo. Foto: Elielson Almeida
Raimundo Cardoso. Uma história de luta por direitos básicos para os moradores do quilombo. Foto: Elielson Almeida

Raimundo Cardoso acompanha essa história desde o início. Foi ele quem organizou algumas das primeiras articulações políticas do quilombo.  Ele lembra que as prioridades sempre foram claras: educação e saúde. “Quando comecei, pensei logo nisso. Hoje a gente tem escola dentro do quilombo, posto de saúde, projetos andando. Mas nada veio espontaneamente, foi preciso muita luta”, afirma. 


O conflito com a Avenida Liberdade foi um dos embates mais recentes do Seu Raimundo. O projeto do governo do Estado expôs, de forma explícita, o choque entre o projeto de “desenvolvimento”  e a permanência do Quilombo do Abacatal na Região Metropolitana de Belém. 


O traçado original previa atravessar o território, eliminando áreas de uso coletivo, estruturas comunitárias e casas. A mobilização dos moradores da comunidade conseguiu desviar a obra, afastando o traçado para a alguns quilômetros de distância, mas o distanciamento não impediu seus efeitos colaterais. “A Avenida  Liberdade ia passar por dentro do território. Ia acabar com campo, com sede, com casa. A gente barrou. Se a gente não lutar, a comunidade é dizimada”.


O Instituto Mbaraká Ókùta nasce desse mesmo princípio de resistência e carrega a história da comunidade no nome, que significa “caminho sagrado de pedras", uma referência direta ao caminho de pedras do Quilombo do Abacatal, construído pelos antepassados da comunidade para que o barão que dominava a região não precisasse pisar na lama. 


A obra foi feita à custa de trabalho forçado e custou a vida de muitos negros escravizados. Hoje, o caminho permanece como marca física da violência colonial e da resistência quilombola, carregando a memória dos que morreram para que o território pudesse existir.



O caminho de pedras, que carrega a história de resistência quilombola. Foto: Elielson Almeida
O caminho de pedras, que carrega a história de resistência quilombola. Foto: Elielson Almeida

Para Turi Omonibo, liderança do quilombo, a resistência do Abacatal sempre foi coletiva e estratégica. Ela lembra que a comunidade nunca caminhou sozinha e que aprender a negociar foi uma necessidade imposta pelos conflitos com grandes obras. 


“A gente prestou atenção que sozinho não conseguia. A gente já não caminhava sozinho desde sempre”, afirma. Foi a partir dessa leitura que o território construiu seus protocolos de consulta e passou a definir, com clareza, o que aceitava e o que não estava disposto a negociar. “Se a gente não bater o pé, não lutar e não ter visão de futuro, a gente é passado por cima, é esmagado.”


Essa trajetória foi acompanhada por parceiros que estiveram presentes em momentos decisivos de enfrentamento. O Coletivo Pororoka, parceiro histórico do Quilombo Abacatal, foi uma das entidades presentes na cerimônia de inauguração do Instituto Mbaraká Ókùta.

Rodrigo Leitão, advogado e membro da Pororoka, lembra que sua relação com o Abacatal começou ainda em 2010, durante enfrentamentos contra a instalação do aterro sanitário de Marituba. Para ele, o Instituto consolida um aprendizado construído ao longo do tempo.


“Esse território sempre esteve sob pressão. Criar instrumentos próprios de resistência foi uma necessidade. Toda essa luta constrói o que hoje se materializa nessa fundação. É um fortalecimento do território do Abacatal, agora também na figura das filhas do Seu Raimundo, como a Vanuza, hoje uma liderança reconhecida internacionalmente”, disse.


 
 

Quando o Estado não chega, o quilombo cria os seus próprios caminhos

Vanuza Cardoso lidera um instituto para levar a luta do território a novos espaços de tomadas de decisão

30 de janeiro de 2026

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Por séculos, a avenida que leva ao Quilombo do Abacatal foi de chão de terra batida. Durante o inverno, era tomada pela lama; no verão, pela poeira. Em 2025, ela finalmente recebeu asfalto, uma das compensações após a construção da Avenida Liberdade, obra que cortou o entorno do território e reacendeu um conflito antigo entre o quilombo e o poder público. 


Mas o asfalto chegou apenas até o portão do quilombo. Do lado de dentro, a decisão da comunidade foi de não pavimentar as ruas, avaliando que o asfalto amplia os riscos ao facilitar o acesso de pessoas externas, em um cenário marcado pela ausência de políticas públicas de segurança, além do aumento da pressão imobiliária  que ameaça invadir o território.


O portão virou resistência. E é a partir deste limite, onde o Estado chega apenas pela metade, é que nasce o Instituto Mbaraká Ókùta, fundado por Vanuza Cardoso, uma das  lideranças do Abacatal.



Para Vanuza Cardoso, a criação do Instituto Quilombola Mbaraká Òkutá abre novos caminhos para a defesa do território do Abacatal. Foto: Elielson Almeida
Para Vanuza Cardoso, a criação do Instituto Quilombola Mbaraká Òkutá abre novos caminhos para a defesa do território do Abacatal. Foto: Elielson Almeida

Filha de Raimundo Cardoso, uma das principais referências da luta quilombola no Pará, Vanuza cresceu acompanhando assembleias, enfrentamentos com o Estado e disputas por serviços básicos. Hoje, ela preside o Instituto recém-inaugurado pela comunidade. “É sonho e é urgência. A gente sempre defendeu a vida dentro do território. Agora, precisamos defender também fora dele. Porque é lá que as decisões são tomadas”, conta.


Ao longo de sua história, o quilombo do Abacatal precisou de muita luta para garantir escola, posto de saúde, reconhecimento oficial e permanência na terra diante de sucessivos projetos do chamado “desenvolvimento” que ignoram sua existência enquanto terra ancestral.


Para Vanuza, o novo Instituto não substitui a associação comunitária nem disputa protagonismo interno. Surge porque o Estado opera por outra lógica. “A estrutura formal exige CNPJ, burocracia, presença em editais, mesas de negociação. Exige forma jurídica para reconhecer a existência política. É uma forma de ocupar os espaços onde o Estado não está chegando e chegar lá de forma organizada para cobrar. Levar a voz do Abacatal para todos os espaços”, disse.



Raimundo Cardoso. Uma história de luta por direitos básicos para os moradores do quilombo. Foto: Elielson Almeida
Raimundo Cardoso. Uma história de luta por direitos básicos para os moradores do quilombo. Foto: Elielson Almeida

Raimundo Cardoso acompanha essa história desde o início. Foi ele quem organizou algumas das primeiras articulações políticas do quilombo.  Ele lembra que as prioridades sempre foram claras: educação e saúde. “Quando comecei, pensei logo nisso. Hoje a gente tem escola dentro do quilombo, posto de saúde, projetos andando. Mas nada veio espontaneamente, foi preciso muita luta”, afirma. 


O conflito com a Avenida Liberdade foi um dos embates mais recentes do Seu Raimundo. O projeto do governo do Estado expôs, de forma explícita, o choque entre o projeto de “desenvolvimento”  e a permanência do Quilombo do Abacatal na Região Metropolitana de Belém. 


O traçado original previa atravessar o território, eliminando áreas de uso coletivo, estruturas comunitárias e casas. A mobilização dos moradores da comunidade conseguiu desviar a obra, afastando o traçado para a alguns quilômetros de distância, mas o distanciamento não impediu seus efeitos colaterais. “A Avenida  Liberdade ia passar por dentro do território. Ia acabar com campo, com sede, com casa. A gente barrou. Se a gente não lutar, a comunidade é dizimada”.


O Instituto Mbaraká Ókùta nasce desse mesmo princípio de resistência e carrega a história da comunidade no nome, que significa “caminho sagrado de pedras", uma referência direta ao caminho de pedras do Quilombo do Abacatal, construído pelos antepassados da comunidade para que o barão que dominava a região não precisasse pisar na lama. 


A obra foi feita à custa de trabalho forçado e custou a vida de muitos negros escravizados. Hoje, o caminho permanece como marca física da violência colonial e da resistência quilombola, carregando a memória dos que morreram para que o território pudesse existir.



O caminho de pedras, que carrega a história de resistência quilombola. Foto: Elielson Almeida
O caminho de pedras, que carrega a história de resistência quilombola. Foto: Elielson Almeida

Para Turi Omonibo, liderança do quilombo, a resistência do Abacatal sempre foi coletiva e estratégica. Ela lembra que a comunidade nunca caminhou sozinha e que aprender a negociar foi uma necessidade imposta pelos conflitos com grandes obras. 


“A gente prestou atenção que sozinho não conseguia. A gente já não caminhava sozinho desde sempre”, afirma. Foi a partir dessa leitura que o território construiu seus protocolos de consulta e passou a definir, com clareza, o que aceitava e o que não estava disposto a negociar. “Se a gente não bater o pé, não lutar e não ter visão de futuro, a gente é passado por cima, é esmagado.”


Essa trajetória foi acompanhada por parceiros que estiveram presentes em momentos decisivos de enfrentamento. O Coletivo Pororoka, parceiro histórico do Quilombo Abacatal, foi uma das entidades presentes na cerimônia de inauguração do Instituto Mbaraká Ókùta.

Rodrigo Leitão, advogado e membro da Pororoka, lembra que sua relação com o Abacatal começou ainda em 2010, durante enfrentamentos contra a instalação do aterro sanitário de Marituba. Para ele, o Instituto consolida um aprendizado construído ao longo do tempo.


“Esse território sempre esteve sob pressão. Criar instrumentos próprios de resistência foi uma necessidade. Toda essa luta constrói o que hoje se materializa nessa fundação. É um fortalecimento do território do Abacatal, agora também na figura das filhas do Seu Raimundo, como a Vanuza, hoje uma liderança reconhecida internacionalmente”, disse.


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