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Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka
Por séculos, a avenida que leva ao Quilombo do Abacatal foi de chão de terra batida. Durante o inverno, era tomada pela lama; no verão, pela poeira. Em 2025, ela finalmente recebeu asfalto, uma das compensações após a construção da Avenida Liberdade, obra que cortou o entorno do território e reacendeu um conflito antigo entre o quilombo e o poder público.
Mas o asfalto chegou apenas até o portão do quilombo. Do lado de dentro, a decisão da comunidade foi de não pavimentar as ruas, avaliando que o asfalto amplia os riscos ao facilitar o acesso de pessoas externas, em um cenário marcado pela ausência de políticas públicas de segurança, além do aumento da pressão imobiliária que ameaça invadir o território.
O portão virou resistência. E é a partir deste limite, onde o Estado chega apenas pela metade, é que nasce o Instituto Mbaraká Ókùta, fundado por Vanuza Cardoso, uma das lideranças do Abacatal.

Filha de Raimundo Cardoso, uma das principais referências da luta quilombola no Pará, Vanuza cresceu acompanhando assembleias, enfrentamentos com o Estado e disputas por serviços básicos. Hoje, ela preside o Instituto recém-inaugurado pela comunidade. “É sonho e é urgência. A gente sempre defendeu a vida dentro do território. Agora, precisamos defender também fora dele. Porque é lá que as decisões são tomadas”, conta.
Ao longo de sua história, o quilombo do Abacatal precisou de muita luta para garantir escola, posto de saúde, reconhecimento oficial e permanência na terra diante de sucessivos projetos do chamado “desenvolvimento” que ignoram sua existência enquanto terra ancestral.
Para Vanuza, o novo Instituto não substitui a associação comunitária nem disputa protagonismo interno. Surge porque o Estado opera por outra lógica. “A estrutura formal exige CNPJ, burocracia, presença em editais, mesas de negociação. Exige forma jurídica para reconhecer a existência política. É uma forma de ocupar os espaços onde o Estado não está chegando e chegar lá de forma organizada para cobrar. Levar a voz do Abacatal para todos os espaços”, disse.

Raimundo Cardoso acompanha essa história desde o início. Foi ele quem organizou algumas das primeiras articulações políticas do quilombo. Ele lembra que as prioridades sempre foram claras: educação e saúde. “Quando comecei, pensei logo nisso. Hoje a gente tem escola dentro do quilombo, posto de saúde, projetos andando. Mas nada veio espontaneamente, foi preciso muita luta”, afirma.
O conflito com a Avenida Liberdade foi um dos embates mais recentes do Seu Raimundo. O projeto do governo do Estado expôs, de forma explícita, o choque entre o projeto de “desenvolvimento” e a permanência do Quilombo do Abacatal na Região Metropolitana de Belém.
O traçado original previa atravessar o território, eliminando áreas de uso coletivo, estruturas comunitárias e casas. A mobilização dos moradores da comunidade conseguiu desviar a obra, afastando o traçado para a alguns quilômetros de distância, mas o distanciamento não impediu seus efeitos colaterais. “A Avenida Liberdade ia passar por dentro do território. Ia acabar com campo, com sede, com casa. A gente barrou. Se a gente não lutar, a comunidade é dizimada”.
O Instituto Mbaraká Ókùta nasce desse mesmo princípio de resistência e carrega a história da comunidade no nome, que significa “caminho sagrado de pedras", uma referência direta ao caminho de pedras do Quilombo do Abacatal, construído pelos antepassados da comunidade para que o barão que dominava a região não precisasse pisar na lama.
A obra foi feita à custa de trabalho forçado e custou a vida de muitos negros escravizados. Hoje, o caminho permanece como marca física da violência colonial e da resistência quilombola, carregando a memória dos que morreram para que o território pudesse existir.

Para Turi Omonibo, liderança do quilombo, a resistência do Abacatal sempre foi coletiva e estratégica. Ela lembra que a comunidade nunca caminhou sozinha e que aprender a negociar foi uma necessidade imposta pelos conflitos com grandes obras.
“A gente prestou atenção que sozinho não conseguia. A gente já não caminhava sozinho desde sempre”, afirma. Foi a partir dessa leitura que o território construiu seus protocolos de consulta e passou a definir, com clareza, o que aceitava e o que não estava disposto a negociar. “Se a gente não bater o pé, não lutar e não ter visão de futuro, a gente é passado por cima, é esmagado.”
Essa trajetória foi acompanhada por parceiros que estiveram presentes em momentos decisivos de enfrentamento. O Coletivo Pororoka, parceiro histórico do Quilombo Abacatal, foi uma das entidades presentes na cerimônia de inauguração do Instituto Mbaraká Ókùta.
Rodrigo Leitão, advogado e membro da Pororoka, lembra que sua relação com o Abacatal começou ainda em 2010, durante enfrentamentos contra a instalação do aterro sanitário de Marituba. Para ele, o Instituto consolida um aprendizado construído ao longo do tempo.
“Esse território sempre esteve sob pressão. Criar instrumentos próprios de resistência foi uma necessidade. Toda essa luta constrói o que hoje se materializa nessa fundação. É um fortalecimento do território do Abacatal, agora também na figura das filhas do Seu Raimundo, como a Vanuza, hoje uma liderança reconhecida internacionalmente”, disse.








