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  • Foto do escritor: Pororoka Midiativista
    Pororoka Midiativista
  • 30 de abr.
  • 6 min de leitura

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Sirlene Santos trabalha há mais de dez anos como cuidadora de idosos. Sua rotina começa antes do sol nascer. Às 5h30, ela já está de pé, se preparando para sair. O dia dela se organiza a partir do outro. Ao chegar no trabalho, assume uma sequência contínua de cuidados: alimentação, medicação, higiene, companhia. Não há pausa real no trabalho. Cada gesto exige atenção e responsabilidade. “A gente não tá lidando só com trabalho. A gente tá lidando com vida”, resume.


Apesar disso, o reconhecimento não acompanha a responsabilidade. O trabalho de cuidadora ainda é visto como algo simples, uma extensão do doméstico e não como uma função que exige preparo e precisão. “Muita gente acha que a gente não faz muita diferença. Nos igualam como se fosse qualquer coisa, mas não é. A gente tá cuidando de uma pessoa que depende totalmente da gente”, afirma.


A rotina de Sirlene começa bem antes do sol nascer. Foto: Luísa Brasil
A rotina de Sirlene começa bem antes do sol nascer. Foto: Luísa Brasil

Em alguns momentos, essa desvalorização deixa de ser implícita. Ela aparece na forma como o trabalho é tratado, nos limites impostos dentro da própria casa onde se trabalha e, principalmente, na forma como essas trabalhadoras são posicionadas, não como profissionais responsáveis por sustentar a rotina de alguém, mas como pessoas subordinadas, que devem ocupar um lugar definido.


“Teve um lugar que disseram que eu não podia sentar na mesa. Que meu lugar era outro. Eles comiam e eu tinha que comer comida de uma semana, congelada. Isso marca a gente”.

Ainda assim, o vínculo se constrói. Sirlene descreve como, aos poucos, o cuidado se transforma em escuta e afeto, ainda que isso aconteça dentro de uma relação marcada por desigualdades.


“Tem idoso que me trata melhor que os próprios filhos. Diz que nem parente faz por ele o que eu faço. E isso me faz me sentir bem, sabe? Faz eu acreditar que eu posso dar sempre o meu melhor. Porque mesmo sem toda a lucidez, eles reconhecem. Eles sentem”.


Mas o vínculo, por si só, não altera a estrutura em que esse trabalho se insere. Por trás das relações construídas no cotidiano, permanece uma lógica mais antiga, que atravessa gerações. A experiência de Sirlene faz parte de um histórico de exploração que acompanha mulheres que exercem o papel de cuidar, dentro e fora de casa. 


A luta política de uma trabalhadora doméstica por direitos 


Lucileide Reis conheceu o trabalho ainda na infância. Aos 12 anos, saiu do interior para trabalhar em casa de família. A rotina era marcada por longas jornadas e ausência de remuneração. “Eu lavava roupa para 15 pessoas. E quando eles terminavam de comer, eu ia tomar chibé com a cabeça do camarão que sobrava”, lembra.


A exploração não era exceção, era a regra que organizava o trabalho. Ela aparecia na forma como o dia começava antes do horário e terminava depois do necessário, na ausência de pagamento adequado, na negação de direitos básicos e, sobretudo, na maneira como essas mulheres eram tratadas, como alguém que devia servir, e não como trabalhadora. Lucileide reconhece esse padrão na própria trajetória. 


“Uma patroa esfregou carne na minha cara e disse que eu queria roubar para alimentar minha família. Foi ali que eu decidi que ninguém mais ia passar por isso”.


Lucileide Reis destaca a  luta por valorização e em defesa dos direitos para as trabalhadoras domésticas. Foto: Luísa Brasil
Lucileide Reis destaca a luta por valorização e em defesa dos direitos para as trabalhadoras domésticas. Foto: Luísa Brasil

A partir desse episódio, a experiência individual se transformou em decisão. Lucileide começou a procurar outras trabalhadoras, compartilhar o que sabia. As primeiras conversas aconteciam de forma discreta, muitas vezes escondidas, em espaços improvisados, longe do olhar dos empregadores. O risco era constante.


“Quando descobriam que a gente estava se reunindo, as trabalhadoras eram demitidas. Os porteiros contavam para os patrões e aí elas eram mandadas embora. A gente tentava conversar, dizer que tinha direito, mas diziam que a gente não tinha direito a nada”, lembra.


Aos poucos, o que era troca virou organização. A percepção de que existiam direitos, mesmo que negados na prática, passou a circular entre elas, criando uma base comum para reivindicação. “Desde 1972 a gente tinha direito. A gente tinha direito a férias, salário mínimo, à previdência, mas eles estavam acostumados a não pagar. Diziam que a gente não era nem categoria, que a gente estava ficando louca quando falava disso”.


Esse processo levou à criação de uma estrutura coletiva. Em 1994, foi fundado o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas do Pará, presidido por Lucileide. Um dos primeiros do Brasil, resultado de anos de articulação, enfrentamento e insistência em transformar uma condição individual em política pública. 


Décadas depois, parte desses direitos foi formalizada, mas a realidade ainda impõe limites claros. A informalidade permanece como regra, revelando a distância entre o que está previsto e o que, de fato, é garantido no cotidiano. A categoria nunca foi tão longe em termos de conquistas, mas a luta das trabalhadoras domésticas ainda tem muito chão pela frente. 


“Hoje mais de 70% das trabalhadoras domésticas continuam na informalidade. A gente lutou tanto para conquistar direitos, mas eles ainda não são respeitados como deveriam”.


Maternidade: a outra jornada de trabalho que ninguém vê


Rafaela Gurjão tinha 21 anos quando o filho nasceu. Desempregada e diante de uma rotina marcada pela maternidade solo e atípica, ela precisou interromper a faculdade de história e reorganizar completamente a própria vida para garantir o que não podia faltar: comida e assistência médica para o filho, Arthur.


Sem conseguir manter um trabalho fixo, ela passou a aceitar o que aparecia. Foi diarista, florista, operadora de caixa e vendedora ambulante. Vendia bolo nas ruas, nas feiras, onde fosse possível. O trabalho, qualquer que fosse, era uma resposta imediata à necessidade. Arthur foi diagnosticado aos 5 anos com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade e, mais tarde, aos 17, com autismo


“Eu tentei continuar a faculdade, mas não dava para conciliar. Ele tinha muitos problemas de saúde e eu precisava estar presente. Só que, ao mesmo tempo, ele precisava comer. Então eu fui fazendo o que aparecia. Eu ia me recriando pra qualquer coisa, porque ele precisava sobreviver”, relembra.


Rafaela Gurjão enfrentou desde jovem os desafios de conciliar a rotina de trabalho e estudos com a maternidade solo e atípica. Foto: arquivo pessoal
Rafaela Gurjão enfrentou desde jovem os desafios de conciliar a rotina de trabalho e estudos com a maternidade solo e atípica. Foto: arquivo pessoal

O tempo deixou de ser dela.  Ao longo dos anos, Rafaela precisou se ausentar da própria vida para garantir a sobrevivência do filho. Em diversos momentos da vida do filho, a presença dela virou exceção.  “Eu tive que deixar ele com outras pessoas muitas vezes. Eu perdia as festinhas da escola, momentos importantes. Ou eu botava comida na mesa ou eu ficava com ele. Eu não tinha opção”, conta. 


Mas quem cuida de quem cuida? Os anos dedicados às necessidades de outra pessoa cobram um preço na saúde de mulheres que assumem papel de cuidadoras da família. “Eu adoeci. Tive diabetes, obesidade, porque eu nunca pensava em mim. Eu sempre pensava nele. A gente vai se anulando sem perceber”.


Foram quase duas décadas até que Rafaela retomasse os estudos. “ Só agora, depois de muito tempo, eu consegui voltar. Se tudo der certo, até fevereiro eu me formo. Era uma coisa que eu achei que não ia conseguir mais, sabe? Porque foram muitos anos sem poder pensar em mim, sem poder estudar, sem poder me planejar”.


A partir da própria trajetória, Rafaela passou a atuar em projetos voltados para mães atípicas, acompanhando situações semelhantes às que viveu e tentando garantir que outras não enfrentem esse processo sozinhas.


“Hoje eu cuido de outras mães. Porque eu sei o que é passar por isso sozinha. Quando eu ajudo uma mãe a acessar um direito, a buscar um atendimento, é porque lá atrás eu não tive ninguém pra me orientar. Então eu tento ser esse apoio que eu não tive”, conta.


De invisíveis a protagonistas


Não é de hoje que Sirlene, Lucileide e Rafaela assumiram o protagonismo das próprias trajetórias, mostrando que o problema não são as funções que elas desempenham, mas sim a percepção da sociedade em relação ao cuidar. Com suas vozes, elas cobram reconhecimento e remuneração digna, e reforçam a importância de políticas públicas que amparem mulheres.  


Elas também são três das protagonistas do mini documentário “Cuidar de Quem Cuida”, realizado pelo Coletivo Pororoka e dirigido pela artista Luísa Brasil. A obra em breve estará disponível em nossas plataformas.


 
 

Quem sustenta a vida que você leva?

Quem são as trabalhadoras que se dedicam a cuidar das necessidades de outras pessoas, dentro e fora de casa? A rotina de milhões de mulheres que continuam
invisibilizadas e mal remuneradas, mesmo desempenhando um trabalho essencial.

30 de abril de 2026

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Sirlene Santos trabalha há mais de dez anos como cuidadora de idosos. Sua rotina começa antes do sol nascer. Às 5h30, ela já está de pé, se preparando para sair. O dia dela se organiza a partir do outro. Ao chegar no trabalho, assume uma sequência contínua de cuidados: alimentação, medicação, higiene, companhia. Não há pausa real no trabalho. Cada gesto exige atenção e responsabilidade. “A gente não tá lidando só com trabalho. A gente tá lidando com vida”, resume.


Apesar disso, o reconhecimento não acompanha a responsabilidade. O trabalho de cuidadora ainda é visto como algo simples, uma extensão do doméstico e não como uma função que exige preparo e precisão. “Muita gente acha que a gente não faz muita diferença. Nos igualam como se fosse qualquer coisa, mas não é. A gente tá cuidando de uma pessoa que depende totalmente da gente”, afirma.


A rotina de Sirlene começa bem antes do sol nascer. Foto: Luísa Brasil
A rotina de Sirlene começa bem antes do sol nascer. Foto: Luísa Brasil

Em alguns momentos, essa desvalorização deixa de ser implícita. Ela aparece na forma como o trabalho é tratado, nos limites impostos dentro da própria casa onde se trabalha e, principalmente, na forma como essas trabalhadoras são posicionadas, não como profissionais responsáveis por sustentar a rotina de alguém, mas como pessoas subordinadas, que devem ocupar um lugar definido.


“Teve um lugar que disseram que eu não podia sentar na mesa. Que meu lugar era outro. Eles comiam e eu tinha que comer comida de uma semana, congelada. Isso marca a gente”.

Ainda assim, o vínculo se constrói. Sirlene descreve como, aos poucos, o cuidado se transforma em escuta e afeto, ainda que isso aconteça dentro de uma relação marcada por desigualdades.


“Tem idoso que me trata melhor que os próprios filhos. Diz que nem parente faz por ele o que eu faço. E isso me faz me sentir bem, sabe? Faz eu acreditar que eu posso dar sempre o meu melhor. Porque mesmo sem toda a lucidez, eles reconhecem. Eles sentem”.


Mas o vínculo, por si só, não altera a estrutura em que esse trabalho se insere. Por trás das relações construídas no cotidiano, permanece uma lógica mais antiga, que atravessa gerações. A experiência de Sirlene faz parte de um histórico de exploração que acompanha mulheres que exercem o papel de cuidar, dentro e fora de casa. 


A luta política de uma trabalhadora doméstica por direitos 


Lucileide Reis conheceu o trabalho ainda na infância. Aos 12 anos, saiu do interior para trabalhar em casa de família. A rotina era marcada por longas jornadas e ausência de remuneração. “Eu lavava roupa para 15 pessoas. E quando eles terminavam de comer, eu ia tomar chibé com a cabeça do camarão que sobrava”, lembra.


A exploração não era exceção, era a regra que organizava o trabalho. Ela aparecia na forma como o dia começava antes do horário e terminava depois do necessário, na ausência de pagamento adequado, na negação de direitos básicos e, sobretudo, na maneira como essas mulheres eram tratadas, como alguém que devia servir, e não como trabalhadora. Lucileide reconhece esse padrão na própria trajetória. 


“Uma patroa esfregou carne na minha cara e disse que eu queria roubar para alimentar minha família. Foi ali que eu decidi que ninguém mais ia passar por isso”.


Lucileide Reis destaca a  luta por valorização e em defesa dos direitos para as trabalhadoras domésticas. Foto: Luísa Brasil
Lucileide Reis destaca a luta por valorização e em defesa dos direitos para as trabalhadoras domésticas. Foto: Luísa Brasil

A partir desse episódio, a experiência individual se transformou em decisão. Lucileide começou a procurar outras trabalhadoras, compartilhar o que sabia. As primeiras conversas aconteciam de forma discreta, muitas vezes escondidas, em espaços improvisados, longe do olhar dos empregadores. O risco era constante.


“Quando descobriam que a gente estava se reunindo, as trabalhadoras eram demitidas. Os porteiros contavam para os patrões e aí elas eram mandadas embora. A gente tentava conversar, dizer que tinha direito, mas diziam que a gente não tinha direito a nada”, lembra.


Aos poucos, o que era troca virou organização. A percepção de que existiam direitos, mesmo que negados na prática, passou a circular entre elas, criando uma base comum para reivindicação. “Desde 1972 a gente tinha direito. A gente tinha direito a férias, salário mínimo, à previdência, mas eles estavam acostumados a não pagar. Diziam que a gente não era nem categoria, que a gente estava ficando louca quando falava disso”.


Esse processo levou à criação de uma estrutura coletiva. Em 1994, foi fundado o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas do Pará, presidido por Lucileide. Um dos primeiros do Brasil, resultado de anos de articulação, enfrentamento e insistência em transformar uma condição individual em política pública. 


Décadas depois, parte desses direitos foi formalizada, mas a realidade ainda impõe limites claros. A informalidade permanece como regra, revelando a distância entre o que está previsto e o que, de fato, é garantido no cotidiano. A categoria nunca foi tão longe em termos de conquistas, mas a luta das trabalhadoras domésticas ainda tem muito chão pela frente. 


“Hoje mais de 70% das trabalhadoras domésticas continuam na informalidade. A gente lutou tanto para conquistar direitos, mas eles ainda não são respeitados como deveriam”.


Maternidade: a outra jornada de trabalho que ninguém vê


Rafaela Gurjão tinha 21 anos quando o filho nasceu. Desempregada e diante de uma rotina marcada pela maternidade solo e atípica, ela precisou interromper a faculdade de história e reorganizar completamente a própria vida para garantir o que não podia faltar: comida e assistência médica para o filho, Arthur.


Sem conseguir manter um trabalho fixo, ela passou a aceitar o que aparecia. Foi diarista, florista, operadora de caixa e vendedora ambulante. Vendia bolo nas ruas, nas feiras, onde fosse possível. O trabalho, qualquer que fosse, era uma resposta imediata à necessidade. Arthur foi diagnosticado aos 5 anos com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade e, mais tarde, aos 17, com autismo


“Eu tentei continuar a faculdade, mas não dava para conciliar. Ele tinha muitos problemas de saúde e eu precisava estar presente. Só que, ao mesmo tempo, ele precisava comer. Então eu fui fazendo o que aparecia. Eu ia me recriando pra qualquer coisa, porque ele precisava sobreviver”, relembra.


Rafaela Gurjão enfrentou desde jovem os desafios de conciliar a rotina de trabalho e estudos com a maternidade solo e atípica. Foto: arquivo pessoal
Rafaela Gurjão enfrentou desde jovem os desafios de conciliar a rotina de trabalho e estudos com a maternidade solo e atípica. Foto: arquivo pessoal

O tempo deixou de ser dela.  Ao longo dos anos, Rafaela precisou se ausentar da própria vida para garantir a sobrevivência do filho. Em diversos momentos da vida do filho, a presença dela virou exceção.  “Eu tive que deixar ele com outras pessoas muitas vezes. Eu perdia as festinhas da escola, momentos importantes. Ou eu botava comida na mesa ou eu ficava com ele. Eu não tinha opção”, conta. 


Mas quem cuida de quem cuida? Os anos dedicados às necessidades de outra pessoa cobram um preço na saúde de mulheres que assumem papel de cuidadoras da família. “Eu adoeci. Tive diabetes, obesidade, porque eu nunca pensava em mim. Eu sempre pensava nele. A gente vai se anulando sem perceber”.


Foram quase duas décadas até que Rafaela retomasse os estudos. “ Só agora, depois de muito tempo, eu consegui voltar. Se tudo der certo, até fevereiro eu me formo. Era uma coisa que eu achei que não ia conseguir mais, sabe? Porque foram muitos anos sem poder pensar em mim, sem poder estudar, sem poder me planejar”.


A partir da própria trajetória, Rafaela passou a atuar em projetos voltados para mães atípicas, acompanhando situações semelhantes às que viveu e tentando garantir que outras não enfrentem esse processo sozinhas.


“Hoje eu cuido de outras mães. Porque eu sei o que é passar por isso sozinha. Quando eu ajudo uma mãe a acessar um direito, a buscar um atendimento, é porque lá atrás eu não tive ninguém pra me orientar. Então eu tento ser esse apoio que eu não tive”, conta.


De invisíveis a protagonistas


Não é de hoje que Sirlene, Lucileide e Rafaela assumiram o protagonismo das próprias trajetórias, mostrando que o problema não são as funções que elas desempenham, mas sim a percepção da sociedade em relação ao cuidar. Com suas vozes, elas cobram reconhecimento e remuneração digna, e reforçam a importância de políticas públicas que amparem mulheres.  


Elas também são três das protagonistas do mini documentário “Cuidar de Quem Cuida”, realizado pelo Coletivo Pororoka e dirigido pela artista Luísa Brasil. A obra em breve estará disponível em nossas plataformas.


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