- segueapororoka
- 16 de mar.
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Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka
O remo corta suavemente a água do Lago Verde enquanto a catraia avança rumo à Ilha do Amor. Na orla de Alter do Chão, motores de lanchas disputam passageiros e levantam ondas que batem na areia, acelerando o ritmo de erosão das praias que colocaram o pequeno vilarejo na rota do turismo internacional.
Para Antônio Sardinha, presidente da Associação dos Catraieiros da Vila de Alter do Chão, o barulho dos motores anuncia uma mudança silenciosa na vila. “A travessia de catraia sempre fez parte da experiência da vila. É assim que a gente conhece o lago, devagar, olhando a água, vendo a paisagem. Você vem para Alter do Chão e não atravessa para a Ilha do Amor de canoa, então você não veio para Alter do Chão. ”, diz. Mas este tipo de experiência está ficando cada vez mais ameaçada.

Durante décadas, as pequenas canoas de madeira foram o principal meio de travessia entre a vila e a Ilha do Amor. Conduzidas apenas a remo, elas transportam moradores e visitantes em um trajeto curto pelo Lago Verde. A travessia dura poucos minutos, mas se tornou um dos rituais cotidianos da vila.
Os homens que conduzem essas embarcações são conhecidos como catraieiros. Muitos aprenderam o ofício ainda crianças, acompanhando pais e parentes nas primeiras viagens pelo lago. O próprio Antônio Sardinha começou cedo. Trabalha ali desde os 11 anos, quando começou a ajudar nas travessias. Hoje, ele preside a associação criada em 1980 para organizar o trabalho da categoria. A associação reúne cerca de 100 catraieiros e estabelece regras para a atividade, como o sistema de rodízio entre as canoas, limite de passageiros por viagem e normas básicas de segurança. Cada catraia costuma levar até quatro pessoas, além do remador.
Para quem chega como visitante, os catraieiros muitas vezes são o primeiro contato com a vila. São eles que orientam turistas, contam histórias da região e conduzem a travessia para as faixas de areia branca que surgem no Lago Verde durante o verão amazônico, quando a vazante do rio Tapajós revela praias temporárias ao redor de Alter do Chão.

Mais do que transporte, a atividade acabou se tornando parte da identidade local. O conhecimento sobre o lago, as correntes, as áreas rasas e as épocas de cheia e vazante é transmitido entre gerações. Por isso, o ofício foi reconhecido como patrimônio cultural do município de Santarém.
Ainda assim, Antônio Sardinha afirma que muitos visitantes passam pela vila sem perceber que estão diante de um patrimônio vivo. “Muita gente vem para Alter do Chão e não sabe que esse patrimônio está bem na frente dela. A pessoa chega, tira foto da praia, pega uma lancha e vai embora. Nem percebe que essa travessia de canoa é uma tradição antiga da vila”, diz.

Nos últimos anos, porém, a rotina no lago começou a mudar. Hoje, quem chega à orla encontra um cenário diferente do que existia há pouco mais de uma década. A vila se consolidou como um dos destinos turísticos mais conhecidos da Amazônia. Com a visibilidade crescente nas redes sociais e em roteiros internacionais, o número de visitantes aumentou. Vieram também novos operadores de turismo e, com eles, mais embarcações motorizadas.
Segundo Sardinha, o crescimento foi rápido. Hoje, estima-se que mais de duzentas lanchas operem na região, muitas delas oferecendo a travessia para a Ilha do Amor, o mesmo trajeto que durante décadas foi feito quase exclusivamente pelas catraias. “Tem dia que o turista chega e já colocam ele direto na lancha. Quando a gente vê, a viagem já saiu. A gente fica ali esperando na beira, mas a lancha já levou o passageiro. Antes não era assim. A travessia era feita pelas catraias”, conta Sardinha.

O conflito vai além da concorrência econômica. As catraias operam sob regras de segurança e capacidade, enquanto as lanchas circulam com fiscalização irregular. Quem deveria regular o transporte, Marinha do Brasil, prefeitura de Santarém, secretarias municipais de turismo e de portos e as Áreas de Proteção Ambiental do entorno do lago, aparece no lago apenas em períodos específicos do ano. “Quando não tem fiscalização, sempre tem quem desobedece. Tem embarcação que faz viagem sem respeitar limite, sem organização. Aí vira uma disputa que não é igual para todo mundo”, diz Sardinha.
O lago funciona como território livre para embarcações de diferentes capacidades e custos. Enquanto as catraias transportam poucos passageiros em velocidade baixa, as lanchas carregam grupos maiores rapidamente, criando pressão econômica direta sobre o trabalho dos remadores.
Para quem passa o dia inteiro no lago, as mudanças se tornam visíveis na própria paisagem da orla. Do ponto onde costuma esperar passageiros, Sardinha observa o movimento constante das embarcações motorizadas cruzando a travessia. Quando o nível da água baixa, manchas de óleo aparecem perto da margem. “As lanchas fazem buracos perto da margem e isso aumenta a erosão. A água começa a comer a beira e a gente vê as árvores caindo aos poucos”, afirma.
Ele aponta para algumas árvores na orla e conta que já viu várias desaparecerem ao longo dos anos. “A gente vê morrer duas ou três árvores por ano. São árvores antigas, que estavam ali há muito tempo. Depois que caem, demora muito para nascer outra no lugar”, diz. “Para quem mora aqui e vê isso todo dia, é um desastre. Quem chega como turista talvez nem perceba, mas quem trabalha no lago vê a mudança acontecendo.”
No Lago Verde, os remos ainda riscam a água todos os dias. Mas o silêncio que acompanhava a travessia durante muitos anos já não é mais o mesmo.









