- Lucas Freire
- 17 de abr.
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Atualizado: 18 de abr.
Por Lucas Freire, jornalista e membro da Pororoka
No dia 17 de abril de 1996, cerca de 1.500 famílias sem terra realizavam uma marcha pela Curva do S, em Eldorado dos Carajás, com destino a Belém, reivindicando a desapropriação de terras improdutivas para a produção de alimentos e a garantia de dignidade e direitos. As reivindicações, entretanto, foram respondidas com violência. Naquele dia, 21 trabalhadores rurais foram assassinados durante uma ação da Polícia Militar.
A brutalidade do episódio expôs ao país e ao mundo a violência histórica que marca a luta pela democratização da terra no Brasil e transformou aquele trecho da BR-155 em um símbolo de dor, injustiça e impunidade.

“O que aconteceu em 1996 foi uma reação, principalmente do latifúndio, contra a luta dos trabalhadores pela democratização do acesso à terra e contra um sistema que assassina pessoas e que não consegue avançar na promoção e na proteção da dignidade humana”, conta Polliane Soares, integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
A família de Polliane foi uma das que integraram a marcha há 30 anos. Ela relata que foi nesse período que o MST chegou ao município e despertou nela o desejo de se unir ao movimento para defender a luta pela terra, educação, saúde e qualidade de vida no campo.

“Foi um momento decisivo na história da luta pela terra no Brasil, e que tem grande importância na minha forma de analisar como o Estado tratou, e trata, os trabalhadores que se organizam nessa luta. A minha história de vida e de militância está fundamentada nessa busca por direitos, sobretudo o direito à vida, para que as pessoas possam ter condições dignas”, explica.
O professor e militante do MST Batista do Nascimento Silva é outro sobrevivente da violência. Ele tinha apenas 15 anos quando o massacre ocorreu e reflete sobre como a ação do Estado contra quem luta pela democratização do acesso à terra moldou sua trajetória.
“Esperavam que o massacre acabasse com a organização política do movimento sem terra, mas ele teve o efeito contrário. Mesmo em luto, saímos mais unidos e fortalecidos. Diante daquele cenário de horror, tomei como decisão de vida estar sempre ao lado dos camponeses, de trabalhadores que muitas vezes são colocados em condições análogas à escravidão, que estão mais vulneráveis socialmente e que não têm direito à posse da terra para trabalhar e produzir meios de subsistência familiar”, afirma.

Quando a luta vira raiz
Mesmo com o luto, a resistência, a esperança e a luta por uma reforma agrária popular seguem impulsionando conquistas ao longo dos últimos 30 anos. Atualmente, a fazenda Macaxeira tem outro nome: se tornou o assentamento 17 de Abril, que abriga cerca de 690 pessoas. Além disso, o MST já conta com mais de 400 mil famílias assentadas, garantindo acesso à terra e moradia.

Em muitas áreas, os assentamentos se consolidaram como polos de agricultura familiar e agroecologia, contribuindo para a segurança alimentar e para a economia local. Além disso, o movimento construiu escolas, cooperativas e experiências de educação do campo, fortalecendo a autonomia das comunidades rurais.
Na Região Metropolitana de Belém, o assentamento Abril Vermelho é um dos exemplos que colocam em prática alternativas ao modelo exploratório de recursos promovido pelo agronegócio.
A fazenda, localizada no município de Santa Bárbara, era utilizada para o cultivo de dendê. O local respondia por uma série de crimes ambientais, mas foi transformado, em 2004, em assentamento para mais de 400 famílias do MST. Hoje, quase 6 mil hectares da região estão em processo de recuperação de nascentes e áreas de floresta, com plantações de cacau, açaí e outras espécies amazônicas, unindo preservação ambiental a práticas agroecológicas e tornando-se referência na produção e distribuição de alimentos.
Sai o S de “sangue”, entra o S de “sonho”
Para o movimento, recordar o massacre não é apenas olhar para o passado, mas reafirmar compromissos com o presente e o futuro. A luta pela reforma agrária segue atual diante da concentração fundiária, dos conflitos no campo e dos desafios impostos pelas mudanças climáticas e pelo avanço do agronegócio sobre territórios tradicionais.
“A decisão tomada pelo MST de se tornar, daquele dia em diante, guardião da história de luta e uma voz de denúncia contra a impunidade no campo é extremamente importante, pois isso impulsionou outras organizações a também integrarem a luta pela democratização do acesso à terra, contra a concentração de latifúndios e pela preservação ambiental”, afirma Polliane.
O dia 17 de Abril pode até ter nascido da dor, mas ele também traz consigo uma trajetória coletiva que resiste, transforma e insiste em semear esperança. No Abril Vermelho, o MST reafirma que a memória não se apaga, mas se transforma em luta para que a terra cumpra sua função social e a vida no campo seja digna para todos.











