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Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka
A ocupação da Câmara de Vereadores de Santarém não começou no plenário. Começou na BR-163, em frente à área da Cargill, durante um protesto indígena em defesa do rio Tapajós. Foi lá que um carro avançou contra um grupo de indígenas que mantinham uma barreira na rodovia na última quinta-feira (05). O veículo era conduzido pelo vereador Malaquias Mottin, do Partido Liberal (PL).
Para as lideranças indígenas, o gesto não foi um acidente: foi intimidação. Um recado direto a quem resiste aos projetos de infraestrutura e logística que pressionam o Tapajós. “O vereador vai lá, quase mata o parente. E ele continua aqui”, disse o cacique Gilson Tupinambá, ao cobrar uma posição da Câmara. “Ele já tentou criminalizar a gente, já fez o que tinha que fazer na internet e continua aqui”.
O vereador Malaquias Mottin é um dos defensores do agronegócio na Câmara de Santarém. Ele tem usado a tribuna para defender produtores rurais e reclamar de entraves que, segundo ele, prejudicam o setor agropecuário na região. Em junho de 2025, ele denunciou que intervenções do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) estariam bloqueando áreas produtivas e até resultando na queima de residências em zonas rurais, penalizando produtores e impedindo trabalho no campo, e cobrou sensibilidade dos órgãos ambientais.

A ocupação indígena no porto da Cargill já dura 19 dias. Crianças e idosos seguem nos acampamentos improvisados, sob sol e chuva, enquanto decisões que impactam diretamente o território avançam sem consulta efetiva aos povos tradicionais. Na avaliação do cacique, há uma inversão clara de responsabilidades: enquanto os vereadores se mantêm distantes, são os próprios povos indígenas que assumem a linha de frente da defesa do rio. “A gente está lá passando sol e chuva, com criança e ancião, fazendo o papel que era para vocês fazerem. Vocês foram eleitos. Vocês precisam fazer o papel de vocês”, afirmou.
A mobilização indígena na região oeste do estado tem como foco o Decreto nº 12.600 e os projetos ligados à hidrovia do Tapajós, que foram impostos sem consulta prévia, livre e informada aos povos tradicionais. “Não faz sentido ser consultado com o decreto já feito. Esse decreto é arbitrário, é inconstitucional, ele fere o nosso direito. O rio Tapajós não está à venda”, afirmou o cacique Gilson Tupinambá.
Para o comunicador indígena Walter Kumaruara, a violência na BR-163 não pode ser tratada como episódio isolado. “O que aconteceu ali foi uma tentativa de intimidação. Ele avançou com o carro contra os parentes que estavam fazendo a barreira. Isso é grave e precisa ser responsabilizado”, disse.
Walter Kumaruara destacou, ainda, que levar o caso ao plenário não substitui a luta no território, mas amplia o campo da disputa. Segundo ele, quando a violência política não gera consequência institucional, ela se normaliza. “Se isso passar sem resposta, vira método”, afirmou ao defender a responsabilização do vereador Malaquias Mottin.
Para o cacique Gilson Tupinambá, o ataque do parlamentar do PL faz parte de um histórico mais longo de violências contra indígena no município. Ele relembrou que, em 2017, povos indígenas participaram da elaboração do plano diretor de Santarém, apresentando propostas sobre o uso do território. Segundo o cacique, o conteúdo construído coletivamente foi descartado em uma votação silenciosa, alinhada aos interesses do agronegócio e da Cargill.
“Nós fizemos o plano diretor dizendo como queríamos o formato. Na calada da noite, com as luzes apagadas, os vereadores votaram tudo contra aquilo que nós pedimos. Foi tudo contra”, lembrou a liderança indígena durante o seu discurso no plenário da câmara dos vereadores.
A crítica também alcança a presença da Cargill e os benefícios econômicos prometidos à cidade. Para o cacique, o discurso do desenvolvimento não se traduz em retorno para quem vive no território. “Esse império da Cargill, que chegou aí, eu pergunto: quanto é que deixa de lucro aqui para nós? Porque isso não foi pensado para nós”, ponderou.

Na última sexta-feira (06), a Câmara Municipal de Santarém divulgou uma nota pública de solidariedade aos povos indígenas. No texto, o Legislativo reconheceu que a manifestação era pacífica, reafirmou direitos constitucionais e repudiou os atos atribuídos ao vereador Malaquias Mottin, registrados em vídeo nas redes sociais, nos quais ele aparece avançando um veículo em direção à barreira formada por indígenas durante o bloqueio em frente à Cargill.
A nota afirma que condutas que possam ser interpretadas como intimidação ou ameaça são incompatíveis com o exercício da função pública e com os princípios democráticos. O posicionamento, no entanto, não encerrou o conflito. Para as lideranças indígenas, a manifestação de solidariedade não respondia à gravidade do gesto nem produzia responsabilização política concreta.
Diante da inércia institucional, as lideranças seguem na luta. “Nós estamos há 19 dias e vamos ficar o tempo que for preciso. Nada está escrito em pedra. Assim como já quebramos outras leis, nós vamos quebrar esse decreto”, afirmou o cacique.
O avanço do carro na BR-163 não foi um episódio isolado: foi um limite rompido.






