- segueapororoka
- 7 de fev.
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Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka
Barracas improvisadas, faixas estendidas, gente que se reveza há semanas. Para os povos indígenas da região oeste do Pará, não é celebração. É vigília. No Dia Nacional da Luta dos Povos Indígenas, a palavra “luta” aparece como destino. No Tapajós, ela tem outro peso. Não é metáfora nem escolha política. É uma imposição cotidiana.
Uma situação que Thaigon Arapiun, liderança jovem do Baixo Tapajós, conhece bem. Não porque escolheu estar nela, mas porque o território o empurrou para esse lugar. “A gente não quer estar na luta direto, brigando o tempo todo. Não é isso. A gente sabe o perigo que corre, as nossas vidas, as vidas de quem vem pra luta. Toda vez que a gente se expõe, a gente sabe que está se colocando em risco. Mas do jeito que as coisas são colocadas para nós, não tem como ficar de fora”, diz.
A afirmação não diminui a importância da luta. Expõe o absurdo de precisar travá‑la continuamente para garantir o básico. Para os povos indígenas, lutar nunca foi vocação heroica. Foi resposta à violência, ao apagamento e à ameaça constante. “A luta foi o que garantiu que a gente ainda estivesse aqui. Foi o que impediu que muitos povos fossem completamente esquecidos ou dizimados. Mas isso também cansa. A gente também já tá meio saturado. Saturado de ter que estudar estratégia de defesa o tempo todo, quando queria estar estudando outras coisas, vivendo outras experiências. A gente também quer viver”, afirmou Thaigon.

Esse cansaço atravessa o acampamento, onde os povos do Baixo e do Médio Tapajós resistem para defender o rio de um novo ciclo de ameaças. Alessandra Munduruku está entre eles. Ela lembra que o Tapajós não é só paisagem. “As pessoas gostam de vir aqui, tirar foto da praia, do rio bonito, dos pássaros. Mas não enxergam que por trás dessa paisagem tem conflito, tem violência, tem luta. É um projeto de morte. E a gente que vive aqui é tratado como se fosse obstáculo”, afirmou.
A ocupação na Cargill é contrária ao Decreto Nº 12.600, que autoriza estudos de concessões para transformar o Tapajós em mercadoria a serviço do agronegócio, sem consulta aos povos que dependem do rio para sobreviver. No dia 04 de fevereiro, os indígenas ocuparam o aeroporto de Santarém por quase um dia inteiro. A ocupação terminou sem acordo.

Depois de mais de duas semanas de pressão dos povos tradicionais, o Governo Federal recuou e anunciou a suspensão da dragagem. Mas, para quem permanece no front da luta, a exigência continua sendo a revogação total do decreto.
O decreto que ameaça o Tapajós, segundo Alessandra Munduruku, não chega sozinho. Ele abre caminho para um conjunto de projetos que se acumulam há décadas e avançam sobre o território. “Não é só a dragagem do Rio Tapajós. Também tem o Ferrogrão, hidrovias, hidrelétrica, mais mineração nas nossas terras”, afirma.

Mas o impacto não se resume à alteração da paisagem. Atinge o funcionamento do rio. “A gente vai só olhar o rio sendo sujo, os lugares das nascentes, onde nascem as tartarugas, onde nascem os peixes?”, questiona. Para Alessandra, o que está em jogo, diz, não é apenas o presente, mas a continuidade da vida que depende dessas águas.
Talvez, a pergunta mais honesta neste dia não seja como os povos indígenas continuam lutando, mas por que ainda precisam lutar. O que Thaigon Arapiun e Alessandra Munduruku expressam não é desistência. É algo mais simples e mais radical: o desejo de viver. E viver não deveria exigir heroísmo.








