- Lucas Freire
- há 2 dias
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Por Lucas Freire, jornalista e membro da Pororoka
No Abacatal, Região Metropolitana de Belém, a floresta é muito mais do que um patrimônio ambiental. É nela que estão os caminhos percorridos pelos antepassados até as plantas utilizadas para cura, alimentação e proteção espiritual.
Ali, cada árvore preservada representa também a permanência de uma identidade construída a partir da resistência de homens e mulheres que transformaram aquele território em um símbolo da luta pela liberdade na Amazônia.
"Às vezes somos obrigados a esquecer da nossa própria história, de como os que vieram antes de nós faziam a preservação do território. Mas trazer esse conhecimento para as novas gerações é um compromisso que temos com a memória dos nossos ancestrais e com a construção de um futuro mais ecológico, para preservar um território que está correndo risco", explica Vivian Cardoso, também conhecida como Makini, do Instituto Mbaraká-Okuta, criado para fortalecer o protagonismo quilombola na região.

Observar as folhas, sentir o aroma e anotar os nomes de plantas. Parece brincadeira de criança, mas também é uma forma de conectar presente, passado e futuro em só lugar: o Inventário Botânico da comunidade. Em formato de livro, a iniciativa catalogou mais de 50 espécies nativas do território e seus usos pelos moradores, um registro escrito do conhecimento para o acesso de todos, algo que antes era passado apenas de forma oral entre as famílias.

A construção do Inventário foi de maneira colaborativa, com uma oficina de artivismo realizada no dia 17 de julho, envolvendo crianças e adultos do Quilombo.
"Essa atividade foi muito importante para mostrar às nossas crianças o quão vasta é a natureza aqui no Abacatal e como as plantas conseguem cumprir múltiplos propósitos, nos alimentando e também curando, tanto o nosso corpo quanto o nosso espírito", afirma a pedagoga Maria Cardoso.

Enquanto os mais velhos ensinavam, os mais novos aprendiam a identificar e registrar cada erva.
"Foi bom poder conhecer um pouco mais sobre a história do nosso território, e sobre a importância de proteger ele pra que continue nos dando tantas plantas que se transformam em cuidados para as nossas famílias. Sem as plantas aqui do Abacatal, não teríamos alimento nem remédios, e por isso devemos preservá-las", ressalta Ana Isadora, criança moradora do Abacatal.

A ação foi uma parceria do Instituto Mbaraká-Okuta, Fundo Casa Socioambiental, Associação de Moradores e Produtores de Abacatal e Aurá (AMPQUA), Sítio Ossâyn e Coletivo Pororoka.
“Nós criamos um momento de contação da história do surgimento do quilombo até os dias de hoje, fazendo uma troca de conhecimentos entre gerações com a finalidade de preservar o meio ambiente e a cultura do quilombo”, explica Luísa Brasil integrante do núcleo de artivismo do Coletivo Pororoka.
No Abacatal, a ancestralidade rege a forma de viver e proteger o território. Crianças e jovens aprendem com pais, mães, avós e lideranças comunitárias a importância de cuidar dos igarapés, respeitar os ciclos da floresta e utilizar os recursos naturais de forma sustentável.
"Ancestralidade não é apenas uma palavra que a gente escuta por aí. Ela é a nossa vivência no território. E ter esse diálogo com as nossas crianças nos permite fazer com que elas entendam todo o conhecimento que adquirimos e o levem ainda mais longe, em direção ao futuro", completa Makini.
Integrar a vida do quilombo à preservação da floresta é a combinação certeira que só agora o resto do mundo parece entender a importância. No Abacatal sempre foi assim: com 143 famílias e cerca de 600 moradores, o Quilombo ocupa uma área de 616 hectares (tamanho equivalente a mais de 800 campos de futebol) onde a produção de frutas, hortaliças e ervas representa uma importante fonte de renda e soberania alimentar.
Há mais de 300 anos, a história das plantas se entrelaça a dos moradores. Uma história que precisa ser contada e recontada, por que é ela dá sentido às lutas que os quilombolas ainda travam por acesso a serviços básicos, qualidade de vida e pelo direito de existir tal como querem.

“A nossa luta nos garantiu muitas vitórias. Antes, éramos apenas uma pequena comunidade, com pouca estrutura. Mas fomos atrás dos nossos direitos, e hoje temos escolas, posto médico, uma estrada boa. A nossa resistência sempre será para melhorar as condições de vida para os moradores do Abacatal”, conta Raimundo Nonato Cardoso, morador do Abacatal há 77 anos.










