- Lucas Freire
- 25 de mai.
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Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka
Sara Lima cresceu ouvindo o barulho dos cardumes entrando para desovar nos canais da Volta Grande do Xingu, em Altamira, no sudoeste do Pará. O pai dela dizia que o rio estremecia quando os peixes avançavam pela correnteza em direção aos igarapés.
Hoje, Sara vê o rio subir de repente e secar poucas horas depois. Quando a água enche, os peixes ainda seguem o instinto antigo e entram para desovar, mas o fluxo muda rápido demais. O que fica para trás são ovos queimando sob o sol e o ciclo da vida interrompido no meio da correnteza.
Desde o início da operação da usina de Belo Monte, em junho de 2011, o peixe começou a desaparecer da mesa das comunidades que vivem às margens do rio. A alimentação que antes vinha da pesca foi substituída por ovos, frango congelado e comida industrializada comprada na cidade.
Enquanto a Volta Grande ainda tenta sobreviver ao sobe e desce artificial das águas, uma nova ameaça paira sobre o Xingu: uma barragem de rejeitos com mais de 35 milhões de metros cúbicos de lama tóxica prevista para se instalar às margens do rio.

O JULGAMENTO DE UM RIO
O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) deveria decidir na última quarta-feira (20) o futuro do licenciamento da mineradora canadense Belo Sun na Volta Grande do Xingu. A sessão analisaria se o processo continua sob responsabilidade do governo do Pará ou se deve voltar para as mãos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), como defende o Ministério Público Federal (MPF).
A votação, no entanto, foi interrompida após instabilidades no sistema do tribunal e acabou adiada para a primeira semana de junho. Enquanto desembargadores discutem quem deve fazer o licenciamento do novo projeto, comunidades tradicionais afirmam que o território nem sequer superou as consequências de Belo Monte.
Para o MPF, a mina não pode ser considerada apenas como um projeto isolado. O órgão argumenta que os impactos da Belo Sun precisam ser avaliados junto aos efeitos já provocados por Belo Monte em um território atravessado por Terras Indígenas, comunidades tradicionais e por um rio considerado federal pela legislação brasileira.
“Não é o julgamento do algoz, mas sim da vítima. E a vítima é a Volta Grande do Xingu”, afirma Ana Barbosa, do Movimento Xingu Vivo. “O rio Xingu gerenciava vidas humanas e mais que humanas. Hoje, está de joelhos”.

O RIO QUE PERDEU O RUMO
Antes de Belo Monte, moradores da Volta Grande afirmam que o Xingu seguia ciclos previsíveis de cheia e vazão. Hoje, segundo pescadores e ribeirinhos, o rio passou a viver em um movimento de subida e descida da água provocado pela Usina que alterou o comportamento dos peixes e interrompeu ciclos naturais de reprodução.
Ana Barbosa diz que o Xingu “ficou estéril” depois da hidrelétrica. Segundo ela, quando a água sobe, os peixes entram nos canais para desovar, mas o fluxo muda rápido demais e deixa ovos espalhados no barro antes da reprodução terminar. “O Xingu não tinha maré. Hoje ele sobe em duas horas e seca em uma”, afirma.
Comunidades que durante décadas se sustentaram da pesca, hoje estão em situação de insegurança alimentar. “Os peixes perderam o rumo. Nós perdemos nossa soberania alimentar. Antes, a gente escolhia o peixe que queria comer. Hoje, tem pescador fazendo arrastão, aquele tipo de pesca considerada predatória, para tentar pegar literalmente qualquer coisa. O rio está estéril, não tem mais vida”, afirma.

O FANTASMA DE MARIANA
A pescadora Sara Lima diz que aprendeu sobre Mariana e Brumadinho pela televisão. Nunca viu uma barragem romper de perto, mas afirma que basta imaginar a lama descendo pelo Xingu para perder o sono.
O projeto da Belo Sun prevê uma barragem de rejeitos com mais de 35 milhões de metros cúbicos de lama tóxica a 1,5 km da Volta Grande do Xingu. próximo a comunidades indígenas, ribeirinhas e áreas já diretamente impactadas por Belo Monte.
O projeto da Belo Sun também prevê o uso de cianeto no processamento do ouro, uma substância altamente tóxica utilizada na separação do minério e que preocupa comunidades da Volta Grande do Xingu diante do risco de contaminação do rio em caso de acidentes ou vazamentos envolvendo a barragem de rejeitos.
Os estudos de segurança da estrutura foram assinados pela consultoria VOGBr, a mesma envolvida no desastre de Mariana, em Minas Gerais. A empresa e um dos engenheiros responsáveis pelos laudos chegaram a ser denunciados pelo Ministério Público Federal por atestar a estabilidade da barragem de Fundão antes do rompimento que matou 19 pessoas e destruiu o Rio Doce, em 2015.
Na Volta Grande do Xingu, a lembrança da tragédia mineira se mistura ao desgaste de um território no limite.

“Não tem mais reprodução do peixe porque não tem água. A água foi desviada. Hoje a comunidade briga por água potável. Os poços estão secando, as plantas estão morrendo. E agora querem colocar mais esse monstro dentro do território”, afirma.
Ela diz que o medo não está apenas na possibilidade de um rompimento, mas no acúmulo de impactos sobre um rio já em colapso ambiental.
“Antes eles comiam os frutos que caíam na água. Hoje o peixe tá comendo lodo e roendo pedra para sobreviver. A gente vê o que aconteceu lá em Mariana e imagina essa mesma água passando aqui”, diz.
O FUTURO SUSPENSO
A decisão do TRF1 sobre o futuro do licenciamento da Belo Sun deve voltar à pauta da corte no dia 3 de junho.
Às margens dos rios, as comunidades vivem entre a memória de Belo Monte e o medo dos impactos da Belo Sun, e tentam impedir que o Xingu perca mais uma parte de si.

No rio onde antes os cardumes estremeciam a correnteza, hoje sobraram ovos queimando sob o sol.
“A gente falou que Belo Monte não ia dar certo. E não deu. Agora querem fazer a mesma coisa, de novo”, desabafa Sara Lima.










