- Lucas Freire
- 14 de jul.
- 8 min de leitura
Por Lucas Freire, jornalista e membro da Pororoka
A instalação de um data center em Belém, anunciada em 26 de junho, foi recebida por alguns setores como um passo importante para inserir a Amazônia na infraestrutura da inteligência artificial. Será o primeiro da região.
Nomeado BEL1 e gerido pela Elea Data Centers, o projeto será construído no bairro do Barreiro, em uma área de 12 mil m², nas proximidades da subestação de alta tensão Miramar. A previsão é que a unidade entre em operação no segundo trimestre de 2027, com capacidade inicial de 7,5 megawatts e possibilidade de expansão para até 100 megawatts.
Isso equivale a energia de 500 mil casas, segundo especialistas ouvidos pelo portal de notícias Carta Amazônia.
Questionada sobre este índice de consumo, a Elea Data Centers não indicou se ele será diário ou mensal, informando que “ele varia conforme a demanda de processamento dos clientes e o nível de ocupação da infraestrutura”.
A Elea já possui outros “nove data centers localizados em cinco das principais metrópoles do país, com capacidade e escala para atender às necessidades de implantação de nuvem e IA de alta densidade de Big Techs e grandes empresas globais ou locais”. As informações foram enviadas pela própria empresa para o Coletivo Pororoka.
Com um investimento orçado em R$250 milhões, o empreendimento será desenvolvido junto com a Axia Energia, antiga Eletrobras, que fornecerá energia ao projeto.

Mas este anúncio também levanta uma série de perguntas sobre seus possíveis impactos em uma cidade que enfrenta problemas históricos de abastecimento de água, instabilidade no fornecimento de energia e aumento das temperaturas urbanas.
COMO FUNCIONA UM DATA CENTER?
Data centers são instalações que abrigam servidores, sistemas de armazenamento e equipamentos de rede responsáveis por processar, guardar e distribuir dados digitais. Eles sustentam serviços como plataformas de streaming, redes sociais, bancos digitais, sistemas públicos, comércio eletrônico e aplicações de inteligência artificial.
Essas estruturas funcionam 24 horas por dia, sem interrupções, e demandam grande quantidade de energia elétrica. Como os equipamentos geram calor continuamente, também precisam de sistemas de refrigeração para manter os servidores em funcionamento, como grandes volumes de água.
RENOVÁVEL? A ENERGIA DO DATA CENTER VIRÁ DOS RIOS DA AMAZÔNIA
Para o Coletivo Pororoka, a Elea Data Centers afirmou que o consumo de recursos naturais pelo empreendimento será próximo de zero. Será?
Segundo a empresa, o resfriamento do equipamento será feito por centrais de ar condicionado, e não água. Se por um lado, não sobrecarregará um historicamente precário abastecimento hídrico da capital paraense, por outro, aumenta ainda mais a demanda por energia. É neste momento que entra a Axia, que atenderá o Data Center com energia renovável.
Renovável, mas não livre de impactos ambientais, especialmente nos rios da Amazônia.
As usinas hidrelétricas de Belo Monte e Tucuruí estão entre as principais fornecedoras de energia da Axia, e também são dois megaempreendimentos responsáveis por impactos ambientais vistos e sentidos até hoje pelas comunidades. Mesmo com tudo isso, o paraense ainda paga a conta de energia mais cara do país e, agora, um data center chega para sugar ainda mais os nossos rios.

Além disso, o clima naturalmente quente e úmido de Belém representa um desafio adicional. As altas temperaturas durante praticamente todo o ano aumentam a necessidade de resfriamento dos equipamentos, podendo elevar o consumo energético e hídrico caso não sejam adotadas tecnologias de alta eficiência e mecanismos rigorosos de monitoramento ambiental.
SECAS SEVERAS
As mudanças climáticas também adicionam mais um risco: a Amazônia tem enfrentado secas cada vez mais severas, que tem diminuído drasticamente a vazões dos rios que agora podem ser ainda mais pressionados pelo consumo de Data Centers, como explica Lygia Nassar, gestora de sustentabilidade e projetos do Lab da Cidade.
“O grande alerta que precisa ser feito é para a segurança hídrica, que já é um desafio enfrentado pela população de Belém. A intensificação das secas extremas tende a aumentar a pressão sobre o sistema de abastecimento, e também a situação de vulnerabilidade da população".

QUEM PAGA A CONTA?
Também é preciso pensar nos impactos da rede elétrica que abastecerá o projeto do data center. Para o professor doutor Bruno Duarte Gomes, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Amazônia, da Universidade Federal do Pará, a discussão não pode se limitar à promessa de inovação tecnológica.
“Estamos falando de um consumo contínuo de eletricidade comparável ao de algumas centenas de milhares de residências, funcionando dia e noite e sem interrupção. As empresas afirmam que a energia será 100% renovável, mas é preciso entender o que essa expressão significa na prática. Um contrato de compra de energia renovável é, em geral, um arranjo contábil: garante que um volume equivalente de energia limpa foi gerado em algum lugar do sistema, mas os elétrons que alimentam a instalação vêm da rede local”, afirma.

Na capital paraense, o BEL1 será instalado no Barreiro, bairro periférico onde os moradores já dividem espaço com a atividade industrial. A diferença é que serviços básicos de energia e água só chegam para as empresas.
“A pergunta que interessa às famílias de Belém não é se a energia é verde no papel, e sim se a rede que atende os bairros do entorno, que já convive com instabilidades, será reforçada antes da chegada dessa carga. Quem pagará por esse reforço, e haverá alguma forma de repasse de custos ao consumidor comum? São perguntas que ainda não têm resposta pública”, indaga Bruno.
Sobre isso, a Elea respondeu que o abastecimento de energia do Data Center não irá competir com o serviço oferecido à população, afirmando que “toda a conexão do empreendimento à rede elétrica segue os procedimentos estabelecidos pelo setor elétrico brasileiro e depende das análises técnicas e aprovações dos órgãos responsáveis”.
SUA CASA ATÉ 9°C MAIS QUENTE
Em um cenário de mudanças climáticas, Belém está prevista para se tornar a segunda cidade mais quente do planeta até 2050, com 222 dias de calor extremo, segundo uma análise do jornal The Washington Post e da organização sem fins lucrativos CarbonPlan.
Mas para quem mora em um raio de 10 km do Data Center, esse futuro pode começar hoje.
Pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, identificaram que o aumento na temperatura em regiões no entorno de de data centers aumentou, em média, 2º C após o início da operação destes locais. Em alguns casos, este aumento chegou à casa dos 9,1ºC, com efeitos que podem se estender por até 10 quilômetros.
Atualmente, as temperaturas em Belém durante o verão amazônico oscilaram entre 32ºC e 35ºC no ano passado, com uma sensação térmica que beirou os 40ºC, de acordo com Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia.
“Praticamente toda a eletricidade consumida por um data center se transforma em calor, que precisa ser rejeitado para o ambiente. Uma instalação desse porte, somada à impermeabilização do terreno, à supressão de vegetação e ao funcionamento contínuo de chillers e torres de resfriamento, tende a intensificar a ilha de calor local numa área da cidade que já registra temperaturas elevadas”, salienta Bruno Duarte.
Sobre isso, a Elea respondeu que não há previsão de aumento de temperatura no entorno do BEL 1, mas que realiza estudos técnicos.
BARULHO 24 HORAS POR DIA?
Não são raros os vídeos na internet feitos por vizinhos de Data Centers mostrando o barulho semelhante ao de um grande aspirador de pó com defeito. Tira o sossego e a saúde de moradores e impacta diretamente os animais que vivem ao redor, muito mais sensíveis aos ruídos, como pássaros.
O que levanta a preocupação sobre os impactos que o ruído ocasionado pelo funcionamento ininterrupto do BEL 1 trará às comunidades e fauna locais.
“Além de todas as questões, soma-se a esta problemática também o ruído permanente dos sistemas de refrigeração e os testes periódicos de geradores a diesel de emergência, que produzem ruído e emissões locais”, pontua Bruno Duarte.
Uma pesquisa da ONG World Resources Institute, dos Estados Unidos, mostrou que data centers em funcionamento podem gerar níveis de ruído contínuo que variam de 80 até 96 decibéis, bem acima da capacidade definida pela cidade de Belém, por meio da Lei Municipal nº 7.990/2000, onde o limite máximo para a emissão de ruídos é de 70 decibéis de dia e 60 decibéis à noite.
No corpo humano, isso pode se traduzir em problemas de audição, distúrbios do sono, dores de cabeça e outras pioras na qualidade de vida.
Perguntada sobre a questão, a Elea informou que “utiliza soluções de engenharia e isolamento acústico, e são realizadas análises específicas das condições acústicas internas e externas do empreendimento, verificando o atendimento aos limites estabelecidos pela legislação municipal aplicável".
E O LIXO ELETRÔNICO, VAI PARA ONDE?
A Região Metropolitana de Belém vive há anos a crise dos resíduos sólidos, sem conseguir destinar corretamente todo o lixo comum que produz. Agora, também vai precisar lidar com o lixo eletrônico do Data Center, que precisa descartar os servidores a cada 3 a 5 anos.
“Servidores voltados à inteligência artificial têm ciclos de renovação curtos, de três a cinco anos em média, e a operação envolve ainda grandes bancos de baterias e transformadores. Isso significa um fluxo contínuo e crescente de resíduos que a Política Nacional de Resíduos Sólidos obriga a tratar por logística reversa, mas a região Norte praticamente não dispõe de infraestrutura formal de reciclagem de eletrônicos”, pontua Bruno.
Sobre o lixo eletrônico, a Elea informou que "A companhia mantém parceria com fornecedores especializados na reciclagem de cabos e equipamentos eletrônicos, garantindo que esses materiais recebam destinação ambientalmente adequada, em conformidade com a legislação vigente".
ESTAMOS PRONTOS PARA RECEBER UM DATA CENTER?
A ideia de implementar o primeiro Data Center da Amazônia em Belém surgiu em 2024, quando a capital paraense foi escolhida como sede da COP 30, a Cúpula do Clima das Nações Unidas. O CEO da Elea, Alessandro Lombardi, chegou a afirmar que o projeto “representa um legado da COP 30 ao demonstrar a importância de desenvolver infraestrutura digital sustentável em regiões estratégicas e remotas”.
Quando questionada sobre a licença ambiental, a empresa apenas respondeu a reportagem, sem entrar em detalhes, que desenvolve o BEL1 “em conformidade com a legislação ambiental aplicável e seguindo todas as etapas técnicas necessárias para a implantação de um empreendimento dessa natureza”.
Só que nem o Pará ou Belém têm legislação específica sobre Data Centers, e isso não é incomum no Brasil. Um estudo da Universidade Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro, mostrou que 22 dos 27 estados brasileiros não contam com regras de licenciamento ambiental para a operação de Data Centers.
Segundo o estudo, apenas Piauí e Rio Grande do Sul têm normas estaduais para o tema. Outros três estados (Ceará, Rio Grande do Norte e Goiás) têm iniciativas em andamento, como projetos de lei ou propostas normativas.
E, POR FIM, A TRANSPARÊNCIA
A população de Belém ficou sabendo da instalação do Data Center por sites e portais de notícia, que reproduziram apenas informações vagas repassadas pela Elea e a narrativa de desenvolvimento tecnológico para a região. A empresa não esclareceu sobre o processo de licenciamento ambiental ao qual se submeteu.
O Coletivo Pororoka tentou contato com o Estado e Município de Belém sobre o licenciamento e fiscalização do empreendimento, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria*. Os moradores não foram informados, e muito menos consultados sobre a instalação de um Data Center em sua cidade.
“As condicionantes do licenciamento precisam devolver valor ao território. Um data center que se apresenta como legado da COP30 precisa aceitar ser cobrado à altura dessa narrativa. Se os benefícios ficarem restritos aos clientes corporativos que alugarão os servidores, enquanto os custos ambientais ficam com o entorno, não haverá legado, haverá apenas mais um enclave”, conclui Bruno Duarte.
*O espaço segue aberto para respostas.









