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  • Foto do escritor: Lucas Freire
    Lucas Freire
  • 15 de jun.
  • 8 min de leitura

Atualizado: 22 de jun.

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Quando abriu o Instagram para publicar mais um vídeo sobre investigações envolvendo a Fundação Cultural do Pará (FCP), o jornalista Adriano Wilkson descobriu que sua conta havia desaparecido. E ele não foi o único.


Em Santarém, o perfil do Tapajós de Fato saiu do ar sem aviso prévio. Nas semanas anteriores, o veículo havia publicado conteúdos sobre a redução da Floresta Nacional do Jamanxim, o julgamento relacionado ao Massacre de Palmares e debates sobre o fim da escala 6x1.


A jornalista Mary Tupiassu não esperou a conta cair. Depois de publicar um vídeo sobre a articulação política que antecedeu a redução do Jamanxim, ela viu uma sequência incomum de perfis falsos passar a seguir e comentar suas publicações. As notificações não paravam de chegar. Em questão de segundos, novas contas apareciam. Muitas eram estrangeiras. Mary decidiu fechar o perfil temporariamente.


Os três episódios aconteceram em momentos distintos. Não há elementos que permitam afirmar que tenham a mesma origem. Também não existe evidência de coordenação entre eles, mas há algo que os aproxima.


Em uma região marcada por disputas sobre terra, floresta e poder, quem ganha quando determinadas vozes deixam de ser ouvidas?


PRIMEIRO DERRUBAM, DEPOIS INVESTIGAM


A suspensão da conta de Adriano Wilkson não aconteceu de uma só vez. Primeiro vieram as remoções de conteúdo. Depois, o bloqueio do perfil. As publicações retiradas do ar tratavam de reportagens envolvendo a FCP e a operação da Polícia Federal que apreendeu R$ 500 mil em dinheiro vivo transportados por um assessor ligado ao governo estadual.


Segundo Adriano, pelo menos quatro conteúdos foram removidos após denúncias classificadas pela plataforma como relacionadas a direitos autorais. Dias depois, quando tentou publicar um novo vídeo sobre o mesmo tema, descobriu que sua conta havia sido suspensa.


O jornalista Adriano Wilkinson chegou a ter sua conta no Instagram suspensa por dez dias enquanto publicava conteúdos investigativos relacionados ao uso de recursos públicos no estado. Foto: reprodução
O jornalista Adriano Wilkinson chegou a ter sua conta no Instagram suspensa por dez dias enquanto publicava conteúdos investigativos relacionados ao uso de recursos públicos no estado. Foto: reprodução

Sem acesso ao perfil, recorreu pelos canais disponibilizados pela própria plataforma. A conta permaneceu fora do ar por dez dias. Foi durante esse período que ele passou a enxergar o problema para além do próprio caso.


"Quando aconteceu comigo, eu fiquei sem saber o que fazer. Fiz o recurso automático e depois consegui falar com uma pessoa da Meta. Ela me disse que a única forma de se defender era justamente fazer aquele recurso. Então, existe uma vulnerabilidade no Instagram. Eles primeiro derrubam, primeiro punem e só depois investigam se as denúncias fazem sentido".


A suspeita de que havia algo além de denúncias isoladas não surgiu apenas após a suspensão. Meses antes, enquanto publicava reportagens sobre a Prefeitura de Belém, Adriano já havia percebido um comportamento que considerava incomum. Comentários surgiam de perfis criados recentemente, com poucos seguidores e características muito parecidas entre si.


Quando a conta foi suspensa, as notificações recebidas indicavam denúncias feitas por empresas localizadas em países asiáticos. O jornalista afirma não saber quem estaria por trás das denúncias. Ainda assim, acredita que grupos organizados passaram a compreender e explorar fragilidades das plataformas digitais.


"Esses grupos entenderam como funcionam as redes sociais e estão se valendo disso. A Meta recebe uma quantidade grande de denúncias e derruba primeiro para depois apurar. Eles descobriram como usar as redes para derrubar perfis que são críticos".


A conta de Adriano acabou restabelecida após recurso, mas os dez dias fora do ar coincidiram justamente com um período em que o jornalista publicava conteúdos sobre investigações envolvendo recursos públicos no Estado. Para ele, o impacto não se limita ao prejuízo individual.


"Quando a gente perde essas páginas, a gente perde muito, claro. Mas a população perde junto com a gente. Em estados como o Pará, muito do que o povo deveria saber e não sabe é porque a imprensa comercial não faz esse papel".


Enquanto Adriano tentava recuperar seu perfil, outros comunicadores enfrentavam situações parecidas.


O QUE DEIXA DE CIRCULAR


No dia 28 de maio, o perfil do Tapajós de Fato foi suspenso sem aviso prévio. A equipe não recebeu qualquer comunicação antecipada da plataforma. Naquele momento, o veículo acompanhava temas que dificilmente dominavam o noticiário estadual: a tramitação do projeto que reduziu a Floresta Nacional do Jamanxim, o debate sobre o fim da escala 6x1 em Santarém e o julgamento dos recursos apresentados por acusados do Massacre de Palmares, operação policial que deixou dez trabalhadores rurais mortos no sul do Pará, em 2017.


Quando o perfil saiu do ar, essas coberturas também perderam um de seus principais canais de distribuição. Para Lanna Paula, editora-chefe do Tapajós de Fato, esse é o ponto central da discussão.


"Neste momento, pautas importantes de direitos humanos e socioambientais que possam estar acontecendo na nossa região não estão sendo visibilizadas, ou pelo menos não estão sendo visibilizadas para o público que acompanha o Tapajós de Fato".


Lanna Paula, do portal Tapajós de Fato, acredita que estes ataques silenciam vozes que trazem o debate de pautas importantes para a região. Foto: reprodução
Lanna Paula, do portal Tapajós de Fato, acredita que estes ataques silenciam vozes que trazem o debate de pautas importantes para a região. Foto: reprodução

Criado para cobrir direitos humanos, meio ambiente e conflitos territoriais, o veículo atua principalmente em Santarém e em municípios do Baixo Amazonas. Parte dessas pautas raramente encontra espaço contínuo na cobertura dos grandes meios de comunicação. Por isso, para Lanna, o problema ultrapassa a retirada temporária de uma conta.


"A gente tem o enfraquecimento do debate público. A grande imprensa sabe muito bem o que pauta, e não são os temas que a gente aborda. Quando você tira esses assuntos de circulação, você está retirando do debate público discussões importantes sobre a Amazônia e sobre as decisões que afetam a nossa região".


Ela cita como exemplos as mudanças em áreas protegidas, os grandes projetos de infraestrutura e as políticas públicas voltadas à Amazônia. Mas, para a jornalista, a questão não se resume aos temas: ela envolve também quem fala sobre eles.


"São os defensores da floresta, os povos originários, os quilombolas e os trabalhadores rurais que a gente tenta ouvir e visibilizar. Quando veículos independentes deixam de circular, essas vozes podem não chegar ao grande público".


Foi justamente esse receio que levou Mary Tupiassu a agir antes que sua conta fosse derrubada.


ANTES QUE A CONTA CAÍSSE


Mary conta que a movimentação suspeita na conta do portal Amazônia no Ar começou depois da publicação de um vídeo sobre a redução da Floresta Nacional do Jamanxim.

No conteúdo, ela abordava a atuação do governador Helder Barbalho nas articulações políticas relacionadas à proposta. O vídeo alcançou um público maior do que o habitual e pouco depois vieram as notificações.


Contas desconhecidas passaram a seguir o perfil em sequência. Muitas eram estrangeiras. Algumas apareciam em grupos de dez ou mais por vez. Publicações relacionadas ao Jamanxim também passaram a receber comentários de perfis que ela identificou como falsos. A situação incomum fez Mary decidir fechar temporariamente a conta.


"Era um momento em que eu estava falando muito sobre esse assunto. Eu tinha informações exclusivas e tive que fechar minha conta. Tive que parar de falar sobre isso e sobre qualquer outro tema por praticamente três dias".


Mary Tupiassu, do portal Amazônia no Ar, acredita que estes ataques enfraquecem a visibilidade das pautas amazônidas para o grande público. Foto: reprodução
Mary Tupiassu, do portal Amazônia no Ar, acredita que estes ataques enfraquecem a visibilidade das pautas amazônidas para o grande público. Foto: reprodução

A estratégia evitou que o perfil fosse retirado do ar, mas interrompeu a publicação de conteúdos que vinham sendo produzidos naquele período. Para a jornalista, o episódio se soma a outras formas de pressão já conhecidas por comunicadores da Amazônia.


"Hoje, a gente tem uma outra modalidade de assédio. Além do assédio jurídico, além das ameaças que muitos comunicadores já enfrentam, a gente tem o assédio digital. É esse ataque às contas dos jornalistas que mostram a realidade do que está acontecendo aqui".


Na avaliação dela, o problema não se limita aos perfis atingidos. Quando comunicadores independentes deixam de publicar, parte das informações sobre conflitos ambientais, pressão sobre territórios e atuação de grandes grupos econômicos também deixa de circular.


"Se não é através desse jornalismo, o Brasil jamais saberá o que está acontecendo de fato na Amazônia. A maior parte dos crimes socioambientais não chega à opinião pública".


Os episódios são diferentes, mas o efeito produzido por eles é parecido. Essa é justamente uma das preocupações de organizações que monitoram violações à liberdade de imprensa.


UM FENÔMENO QUE SE REPETE


Para a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), ataques digitais contra jornalistas e veículos de comunicação têm se tornado cada vez mais frequentes.


Coordenadora jurídica da entidade, Letícia Kleim afirma que os episódios relatados por comunicadores da Amazônia dialogam com um fenômeno observado em diferentes regiões do país. "Por meio do monitoramento das violações à liberdade de imprensa, a Abraji pode identificar que os ataques digitais contra jornalistas e veículos são um fenômeno amplo e sistemático. A suspensão de contas é uma das formas com que ele se observa e que tem sido cada vez mais denunciada pelas pessoas e organizações afetadas. Não se trata de episódios isolados".


A avaliação da entidade parte de uma constatação simples: as plataformas digitais se tornaram parte central da circulação de informações de interesse público. Quando uma conta desaparece, ainda que temporariamente, o impacto não se restringe ao profissional atingido.


"As plataformas de redes sociais se tornaram um dos espaços centrais do debate público. Ataques e campanhas massivas contra a presença e participação desses agentes na esfera digital criam um ambiente de hostilidade que viola a liberdade de imprensa".


Segundo a Abraji, quem acompanha o trabalho desses jornalistas também é afetado. "Quando essas contas estão impedidas de trabalhar ou de alcançar o seu público plenamente, a sociedade sofre porque deixa de receber informações que podem contribuir para a formação de opinião, para o exercício da cidadania e para a defesa da democracia."


O problema tende a ser ainda mais severo entre veículos independentes, que dependem quase integralmente das plataformas para distribuir conteúdo e alcançar audiência. Na Amazônia, essa vulnerabilidade assume características próprias.


POR QUE A AMAZÔNIA SENTE MAIS?


Em resposta ao Coletivo Pororoka, a Abraji também chamou a atenção para um aspecto que ajuda a compreender por que episódios como os relatados pelos comunicadores da Amazônia produzem efeitos que vão além dos profissionais atingidos.


"A interrupção do trabalho de meios de comunicação sempre traz prejuízo para a sociedade, mas em contextos locais ou próximos de desertos de notícias esse impacto é ainda maior, já que nesses casos podem não existir outros meios de comunicação que sigam cobrindo temas de interesse coletivo enquanto durar a interrupção".


Na Amazônia, parte significativa da cobertura sobre conflitos fundiários, povos indígenas, comunidades quilombolas, pressão sobre territórios e questões socioambientais é realizada justamente por veículos independentes, coletivos de comunicação e jornalistas que atuam fora das grandes redações.


São eles que acompanham audiências públicas em municípios afastados dos grandes centros. Que visitam comunidades impactadas por grandes empreendimentos. Que monitoram decisões políticas com efeitos diretos sobre a floresta. Foi o que aconteceu, por exemplo, durante a discussão sobre a redução da Floresta Nacional do Jamanxim. 


Enquanto organizações socioambientais alertavam para os impactos da proposta, comunicadores independentes acompanhavam votações, repercussões e articulações políticas relacionadas ao tema. Parte desse trabalho estava sendo realizada justamente pelos perfis que foram suspensos ou sofreram ataques digitais.


Para Lanna Furtado, quando se fala sobre limitações ao trabalho de veículos independentes, não se está discutindo apenas o alcance de páginas nas redes sociais, mas sim quem consegue participar da conversa pública.


"Quando a gente fala sobre o enfraquecimento da democracia, quando a gente fala de censura ou de limitações ao trabalho de veículos independentes, a gente está falando também da possibilidade de essas vozes não chegarem a um público maior".


UM ALERTA EM ANO ELEITORAL


Os episódios relatados nesta reportagem aconteceram antes do início oficial da campanha eleitoral. Ainda assim, entre os comunicadores ouvidos existe a percepção de que períodos de disputa política costumam aumentar a exposição de jornalistas independentes a diferentes formas de pressão.


Para Adriano Wilkson, a preocupação está ligada ao volume de interesses em jogo. "Tem muito dinheiro envolvido, tem muito interesse envolvido. E a gente que faz uma comunicação independente, popular e crítica fica mais vulnerável. Ainda mais quem não tem uma grande estrutura por trás".


No Tapajós de Fato, a avaliação é semelhante. Lanna lembra que o veículo enfrentou ameaças em outros momentos de tensão política, especialmente durante as eleições de 2022. "A gente já pode considerar que os ataques têm um período específico para acontecer. Talvez esse período seja mais sensível para comunicadores independentes, para defensores de direitos humanos e para quem atua com essas pautas".


QUEM DEIXA DE SER OUVIDO?


Os episódios que atingiram Adriano Wilkson, Mary Tupiassu e o Tapajós de Fato têm diferenças importantes. Não é possível afirmar que nasceram da mesma ação ou dos mesmos responsáveis. O efeito, porém, foi parecido.


Na Amazônia, onde muitas dessas histórias já disputam espaço para existir, às vezes bastam poucos dias de silêncio para que determinados assuntos desapareçam do debate público. E talvez seja justamente aí que mora a pergunta mais importante desta reportagem.

Quando um jornalista independente deixa de falar, quem deixa de ser ouvido junto com ele?


 
 

O que acontece quando jornalistas da Amazônia são silenciados?

Ataques coordenados de perfis falsos no Instagram miram comunicadores independentes da região. Quando um jornalista sai do ar, histórias e denúncias que raramente chegam à grande imprensa podem deixar de ser contadas.

15 de junho de 2026

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Quando abriu o Instagram para publicar mais um vídeo sobre investigações envolvendo a Fundação Cultural do Pará (FCP), o jornalista Adriano Wilkson descobriu que sua conta havia desaparecido. E ele não foi o único.


Em Santarém, o perfil do Tapajós de Fato saiu do ar sem aviso prévio. Nas semanas anteriores, o veículo havia publicado conteúdos sobre a redução da Floresta Nacional do Jamanxim, o julgamento relacionado ao Massacre de Palmares e debates sobre o fim da escala 6x1.


A jornalista Mary Tupiassu não esperou a conta cair. Depois de publicar um vídeo sobre a articulação política que antecedeu a redução do Jamanxim, ela viu uma sequência incomum de perfis falsos passar a seguir e comentar suas publicações. As notificações não paravam de chegar. Em questão de segundos, novas contas apareciam. Muitas eram estrangeiras. Mary decidiu fechar o perfil temporariamente.


Os três episódios aconteceram em momentos distintos. Não há elementos que permitam afirmar que tenham a mesma origem. Também não existe evidência de coordenação entre eles, mas há algo que os aproxima.


Em uma região marcada por disputas sobre terra, floresta e poder, quem ganha quando determinadas vozes deixam de ser ouvidas?


PRIMEIRO DERRUBAM, DEPOIS INVESTIGAM


A suspensão da conta de Adriano Wilkson não aconteceu de uma só vez. Primeiro vieram as remoções de conteúdo. Depois, o bloqueio do perfil. As publicações retiradas do ar tratavam de reportagens envolvendo a FCP e a operação da Polícia Federal que apreendeu R$ 500 mil em dinheiro vivo transportados por um assessor ligado ao governo estadual.


Segundo Adriano, pelo menos quatro conteúdos foram removidos após denúncias classificadas pela plataforma como relacionadas a direitos autorais. Dias depois, quando tentou publicar um novo vídeo sobre o mesmo tema, descobriu que sua conta havia sido suspensa.


O jornalista Adriano Wilkinson chegou a ter sua conta no Instagram suspensa por dez dias enquanto publicava conteúdos investigativos relacionados ao uso de recursos públicos no estado. Foto: reprodução
O jornalista Adriano Wilkinson chegou a ter sua conta no Instagram suspensa por dez dias enquanto publicava conteúdos investigativos relacionados ao uso de recursos públicos no estado. Foto: reprodução

Sem acesso ao perfil, recorreu pelos canais disponibilizados pela própria plataforma. A conta permaneceu fora do ar por dez dias. Foi durante esse período que ele passou a enxergar o problema para além do próprio caso.


"Quando aconteceu comigo, eu fiquei sem saber o que fazer. Fiz o recurso automático e depois consegui falar com uma pessoa da Meta. Ela me disse que a única forma de se defender era justamente fazer aquele recurso. Então, existe uma vulnerabilidade no Instagram. Eles primeiro derrubam, primeiro punem e só depois investigam se as denúncias fazem sentido".


A suspeita de que havia algo além de denúncias isoladas não surgiu apenas após a suspensão. Meses antes, enquanto publicava reportagens sobre a Prefeitura de Belém, Adriano já havia percebido um comportamento que considerava incomum. Comentários surgiam de perfis criados recentemente, com poucos seguidores e características muito parecidas entre si.


Quando a conta foi suspensa, as notificações recebidas indicavam denúncias feitas por empresas localizadas em países asiáticos. O jornalista afirma não saber quem estaria por trás das denúncias. Ainda assim, acredita que grupos organizados passaram a compreender e explorar fragilidades das plataformas digitais.


"Esses grupos entenderam como funcionam as redes sociais e estão se valendo disso. A Meta recebe uma quantidade grande de denúncias e derruba primeiro para depois apurar. Eles descobriram como usar as redes para derrubar perfis que são críticos".


A conta de Adriano acabou restabelecida após recurso, mas os dez dias fora do ar coincidiram justamente com um período em que o jornalista publicava conteúdos sobre investigações envolvendo recursos públicos no Estado. Para ele, o impacto não se limita ao prejuízo individual.


"Quando a gente perde essas páginas, a gente perde muito, claro. Mas a população perde junto com a gente. Em estados como o Pará, muito do que o povo deveria saber e não sabe é porque a imprensa comercial não faz esse papel".


Enquanto Adriano tentava recuperar seu perfil, outros comunicadores enfrentavam situações parecidas.


O QUE DEIXA DE CIRCULAR


No dia 28 de maio, o perfil do Tapajós de Fato foi suspenso sem aviso prévio. A equipe não recebeu qualquer comunicação antecipada da plataforma. Naquele momento, o veículo acompanhava temas que dificilmente dominavam o noticiário estadual: a tramitação do projeto que reduziu a Floresta Nacional do Jamanxim, o debate sobre o fim da escala 6x1 em Santarém e o julgamento dos recursos apresentados por acusados do Massacre de Palmares, operação policial que deixou dez trabalhadores rurais mortos no sul do Pará, em 2017.


Quando o perfil saiu do ar, essas coberturas também perderam um de seus principais canais de distribuição. Para Lanna Paula, editora-chefe do Tapajós de Fato, esse é o ponto central da discussão.


"Neste momento, pautas importantes de direitos humanos e socioambientais que possam estar acontecendo na nossa região não estão sendo visibilizadas, ou pelo menos não estão sendo visibilizadas para o público que acompanha o Tapajós de Fato".


Lanna Paula, do portal Tapajós de Fato, acredita que estes ataques silenciam vozes que trazem o debate de pautas importantes para a região. Foto: reprodução
Lanna Paula, do portal Tapajós de Fato, acredita que estes ataques silenciam vozes que trazem o debate de pautas importantes para a região. Foto: reprodução

Criado para cobrir direitos humanos, meio ambiente e conflitos territoriais, o veículo atua principalmente em Santarém e em municípios do Baixo Amazonas. Parte dessas pautas raramente encontra espaço contínuo na cobertura dos grandes meios de comunicação. Por isso, para Lanna, o problema ultrapassa a retirada temporária de uma conta.


"A gente tem o enfraquecimento do debate público. A grande imprensa sabe muito bem o que pauta, e não são os temas que a gente aborda. Quando você tira esses assuntos de circulação, você está retirando do debate público discussões importantes sobre a Amazônia e sobre as decisões que afetam a nossa região".


Ela cita como exemplos as mudanças em áreas protegidas, os grandes projetos de infraestrutura e as políticas públicas voltadas à Amazônia. Mas, para a jornalista, a questão não se resume aos temas: ela envolve também quem fala sobre eles.


"São os defensores da floresta, os povos originários, os quilombolas e os trabalhadores rurais que a gente tenta ouvir e visibilizar. Quando veículos independentes deixam de circular, essas vozes podem não chegar ao grande público".


Foi justamente esse receio que levou Mary Tupiassu a agir antes que sua conta fosse derrubada.


ANTES QUE A CONTA CAÍSSE


Mary conta que a movimentação suspeita na conta do portal Amazônia no Ar começou depois da publicação de um vídeo sobre a redução da Floresta Nacional do Jamanxim.

No conteúdo, ela abordava a atuação do governador Helder Barbalho nas articulações políticas relacionadas à proposta. O vídeo alcançou um público maior do que o habitual e pouco depois vieram as notificações.


Contas desconhecidas passaram a seguir o perfil em sequência. Muitas eram estrangeiras. Algumas apareciam em grupos de dez ou mais por vez. Publicações relacionadas ao Jamanxim também passaram a receber comentários de perfis que ela identificou como falsos. A situação incomum fez Mary decidir fechar temporariamente a conta.


"Era um momento em que eu estava falando muito sobre esse assunto. Eu tinha informações exclusivas e tive que fechar minha conta. Tive que parar de falar sobre isso e sobre qualquer outro tema por praticamente três dias".


Mary Tupiassu, do portal Amazônia no Ar, acredita que estes ataques enfraquecem a visibilidade das pautas amazônidas para o grande público. Foto: reprodução
Mary Tupiassu, do portal Amazônia no Ar, acredita que estes ataques enfraquecem a visibilidade das pautas amazônidas para o grande público. Foto: reprodução

A estratégia evitou que o perfil fosse retirado do ar, mas interrompeu a publicação de conteúdos que vinham sendo produzidos naquele período. Para a jornalista, o episódio se soma a outras formas de pressão já conhecidas por comunicadores da Amazônia.


"Hoje, a gente tem uma outra modalidade de assédio. Além do assédio jurídico, além das ameaças que muitos comunicadores já enfrentam, a gente tem o assédio digital. É esse ataque às contas dos jornalistas que mostram a realidade do que está acontecendo aqui".


Na avaliação dela, o problema não se limita aos perfis atingidos. Quando comunicadores independentes deixam de publicar, parte das informações sobre conflitos ambientais, pressão sobre territórios e atuação de grandes grupos econômicos também deixa de circular.


"Se não é através desse jornalismo, o Brasil jamais saberá o que está acontecendo de fato na Amazônia. A maior parte dos crimes socioambientais não chega à opinião pública".


Os episódios são diferentes, mas o efeito produzido por eles é parecido. Essa é justamente uma das preocupações de organizações que monitoram violações à liberdade de imprensa.


UM FENÔMENO QUE SE REPETE


Para a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), ataques digitais contra jornalistas e veículos de comunicação têm se tornado cada vez mais frequentes.


Coordenadora jurídica da entidade, Letícia Kleim afirma que os episódios relatados por comunicadores da Amazônia dialogam com um fenômeno observado em diferentes regiões do país. "Por meio do monitoramento das violações à liberdade de imprensa, a Abraji pode identificar que os ataques digitais contra jornalistas e veículos são um fenômeno amplo e sistemático. A suspensão de contas é uma das formas com que ele se observa e que tem sido cada vez mais denunciada pelas pessoas e organizações afetadas. Não se trata de episódios isolados".


A avaliação da entidade parte de uma constatação simples: as plataformas digitais se tornaram parte central da circulação de informações de interesse público. Quando uma conta desaparece, ainda que temporariamente, o impacto não se restringe ao profissional atingido.


"As plataformas de redes sociais se tornaram um dos espaços centrais do debate público. Ataques e campanhas massivas contra a presença e participação desses agentes na esfera digital criam um ambiente de hostilidade que viola a liberdade de imprensa".


Segundo a Abraji, quem acompanha o trabalho desses jornalistas também é afetado. "Quando essas contas estão impedidas de trabalhar ou de alcançar o seu público plenamente, a sociedade sofre porque deixa de receber informações que podem contribuir para a formação de opinião, para o exercício da cidadania e para a defesa da democracia."


O problema tende a ser ainda mais severo entre veículos independentes, que dependem quase integralmente das plataformas para distribuir conteúdo e alcançar audiência. Na Amazônia, essa vulnerabilidade assume características próprias.


POR QUE A AMAZÔNIA SENTE MAIS?


Em resposta ao Coletivo Pororoka, a Abraji também chamou a atenção para um aspecto que ajuda a compreender por que episódios como os relatados pelos comunicadores da Amazônia produzem efeitos que vão além dos profissionais atingidos.


"A interrupção do trabalho de meios de comunicação sempre traz prejuízo para a sociedade, mas em contextos locais ou próximos de desertos de notícias esse impacto é ainda maior, já que nesses casos podem não existir outros meios de comunicação que sigam cobrindo temas de interesse coletivo enquanto durar a interrupção".


Na Amazônia, parte significativa da cobertura sobre conflitos fundiários, povos indígenas, comunidades quilombolas, pressão sobre territórios e questões socioambientais é realizada justamente por veículos independentes, coletivos de comunicação e jornalistas que atuam fora das grandes redações.


São eles que acompanham audiências públicas em municípios afastados dos grandes centros. Que visitam comunidades impactadas por grandes empreendimentos. Que monitoram decisões políticas com efeitos diretos sobre a floresta. Foi o que aconteceu, por exemplo, durante a discussão sobre a redução da Floresta Nacional do Jamanxim. 


Enquanto organizações socioambientais alertavam para os impactos da proposta, comunicadores independentes acompanhavam votações, repercussões e articulações políticas relacionadas ao tema. Parte desse trabalho estava sendo realizada justamente pelos perfis que foram suspensos ou sofreram ataques digitais.


Para Lanna Furtado, quando se fala sobre limitações ao trabalho de veículos independentes, não se está discutindo apenas o alcance de páginas nas redes sociais, mas sim quem consegue participar da conversa pública.


"Quando a gente fala sobre o enfraquecimento da democracia, quando a gente fala de censura ou de limitações ao trabalho de veículos independentes, a gente está falando também da possibilidade de essas vozes não chegarem a um público maior".


UM ALERTA EM ANO ELEITORAL


Os episódios relatados nesta reportagem aconteceram antes do início oficial da campanha eleitoral. Ainda assim, entre os comunicadores ouvidos existe a percepção de que períodos de disputa política costumam aumentar a exposição de jornalistas independentes a diferentes formas de pressão.


Para Adriano Wilkson, a preocupação está ligada ao volume de interesses em jogo. "Tem muito dinheiro envolvido, tem muito interesse envolvido. E a gente que faz uma comunicação independente, popular e crítica fica mais vulnerável. Ainda mais quem não tem uma grande estrutura por trás".


No Tapajós de Fato, a avaliação é semelhante. Lanna lembra que o veículo enfrentou ameaças em outros momentos de tensão política, especialmente durante as eleições de 2022. "A gente já pode considerar que os ataques têm um período específico para acontecer. Talvez esse período seja mais sensível para comunicadores independentes, para defensores de direitos humanos e para quem atua com essas pautas".


QUEM DEIXA DE SER OUVIDO?


Os episódios que atingiram Adriano Wilkson, Mary Tupiassu e o Tapajós de Fato têm diferenças importantes. Não é possível afirmar que nasceram da mesma ação ou dos mesmos responsáveis. O efeito, porém, foi parecido.


Na Amazônia, onde muitas dessas histórias já disputam espaço para existir, às vezes bastam poucos dias de silêncio para que determinados assuntos desapareçam do debate público. E talvez seja justamente aí que mora a pergunta mais importante desta reportagem.

Quando um jornalista independente deixa de falar, quem deixa de ser ouvido junto com ele?


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