top of page
  • Foto do escritor: Lucas Freire
    Lucas Freire
  • 2 de jul.
  • 4 min de leitura

Por Lucas Freire, jornalista e membro da Pororoka


Do céu, dá para ver um rio sinuoso cercado pela mata em contraste com a cidade ao fundo, à espreita, como uma ameaça que de fato é. Com o passar dos anos, o crescimento urbano e a especulação imobiliária vem arrancando partes da floresta que protege o Ariri.


As curvas do Rio Ariri passam no limite entre os municípios de Belém e Ananindeua,  percorrendo bairros como Cabanagem, Coqueiro, Una e Parque Verde, até desaguar no Rio Maguari. Com uma bacia hidrográfica equivalente a mais de 5 mil campos de futebol em tamanho, suas águas ajudam a abastecer cerca de 300 mil moradores na capital.


O bonito Ariri é um dos últimos grandes corredores ecológicos da Região Metropolitana de Belém, e vai deixar de existir caso ninguém faça nada. 


Quase 300 mil moradores da capital paraense são abastecidos pelas águas do rio Ariri. Foto: reprodução/Lobo Drone
Quase 300 mil moradores da capital paraense são abastecidos pelas águas do rio Ariri. Foto: reprodução/Lobo Drone

As florestas protetoras das águas


A floresta que existe ao redor dos rios atua na proteção dos cursos d’água, impedindo o assoreamento (deslocamento de terra das margens para o fundo do rio), além de ajudar na retenção da água das chuvas e manutenção da biodiversidade. Para gente, isso reduz os riscos de alagamentos e, de quebra, contribui para um microclima com temperaturas mais amenas. 


No caso do Ariri, atualmente só restam 31% desta floresta protetora. Quem mora na região há muitos anos, sabe que o desaparecimento das árvores é o prenúncio do fim do próprio rio, como explica  Milton Pinheiro, presidente do Instituto Ariri Vivo:


"Vivo a realidade daquele entorno desde o início dos anos 1980. Hoje, apenas cerca de 31% da cobertura vegetal original daquela área permanece preservada. Se continuarmos agredindo o rio Ariri da forma como estamos fazendo, com a expansão do setor imobiliário, ou mesmo com a incidência da própria população sobre o rio, ele corre o risco de acabar”.


Milton Pinheiro, presidente do Instituto Ariri Vivo, teme que, apesar dos esforços de preservação destinados pela comunidade à bacia do Ariri, o avanço de fatores como a especulação imobiliária faça com que o rio possa secar. Foto: reprodução
Milton Pinheiro, presidente do Instituto Ariri Vivo, teme que, apesar dos esforços de preservação destinados pela comunidade à bacia do Ariri, o avanço de fatores como a especulação imobiliária faça com que o rio possa secar. Foto: reprodução

Para Milton, a redução da floresta preocupa porque compromete a capacidade da bacia de desempenhar funções ambientais fundamentais para a cidade, principalmente no que diz respeito aos efeitos das mudanças climáticas, como chuvas e calor intensos.


“A ciência já demonstrou que áreas verdes urbanas são uma das ferramentas mais eficientes para reduzir os efeitos das ilhas de calor, melhorar a qualidade do ar e aumentar a resiliência das cidades diante das mudanças climáticas. A manutenção das árvores e florestas urbanas pode reduzir significativamente as temperaturas locais, além de contribuir para a absorção das águas da chuva e para a captura de carbono.”, continua.


Árvores diminuem temperatura em até 10°C


Não é só às margens do Ariri que as árvores correm risco. Um levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) mostrou que apenas 39,6% da capital paraense possui cobertura vegetal, enquanto extensas áreas urbanizadas sofrem com temperaturas significativamente mais elevadas. Em alguns bairros, a diferença térmica em relação às áreas florestadas pode chegar a 10°C.


Para preparar a cidade para a COP 30, o maior evento do planeta sobre Mudanças Climáticas realizado em Belém no ano passado, o governo do Estado devastou duas importantes áreas de mata para a abertura da Avenida Liberdade e Nova Rua da Marinha. Não foi visto, no entanto, o plantio de novas árvores nos locais ou em bairros com pouca arborização na mesma proporção do que foi retirado. O que era solução, pode trazer ainda mais problemas, como explica o professor André Farias, integrante do Núcleo de Meio Ambiente da UFPA.


“A situação atual das áreas verdes da região metropolitana de Belém é bastante preocupante, e não há, ainda, políticas públicas efetivas para tratar esse conjunto de áreas verdes que ainda permanecem na região metropolitana, comprometendo, assim, não apenas a conservação da biodiversidade, mas também a capacidade da cidade de responder aos eventos extremos cada vez mais frequentes”.


Para o professor André Farias, da UFPA, a falta de políticas públicas de preservação das áreas verdes urbanas compromete a capacidade da capital de responder aos eventos climáticos extremos. Foto: reprodução
Para o professor André Farias, da UFPA, a falta de políticas públicas de preservação das áreas verdes urbanas compromete a capacidade da capital de responder aos eventos climáticos extremos. Foto: reprodução

Na curva do Ariri, a luta


É neste contexto que a mobilização popular pela preservação das florestas e rios se faz ainda mais necessária. Há mais de 40 anos, Milton Pinheiro se dedica à proteção da bacia hidrográfica do Ariri e à criação do Parque Ariri, iniciativa que busca transformar o território em Área de Proteção Ambiental (APA) na parte que fica em Belém, complementando as proteções ambientais que já existem no município de Ananindeua.


“A criação do Parque Ariri permitiria proteger áreas de floresta e várzea fundamentais para a manutenção dos serviços ecossistêmicos da região. Também abriria espaço para o desenvolvimento de atividades de educação ambiental, turismo de base comunitária, pesquisa científica, esportes náuticos e lazer para a população”, explica Milton.


Mesmo existindo previsão legal para preservação das áreas verdes da capital, ainda é preciso superar a omissão do próprio Poder Público. 


"Desde 2008, o Plano Diretor Urbano de Belém prevê diversas áreas de florestas urbanas, mas muitas delas ainda não saíram do papel. É preciso que haja interesse e ação do poder público para que estes instrumentos sejam postos em prática e para que as comunidades tornem visíveis suas florestas urbanas remanescentes”.


Olhar para o Rio Ariri é reconhecer que o enfrentamento da crise climática deve acontecer nos territórios urbanos também. Cuidar dos mananciais que abastecem Belém, preservar as florestas que resistem dentro da metrópole e fortalecer políticas públicas voltadas à proteção ambiental são medidas urgentes para construir uma cidade mais saudável, segura e preparada para os desafios do presente e do futuro.


"Essas áreas são fundamentais para enfrentar a crise climática: ajudam a regular a temperatura, absorvem a água das chuvas, oferecem espaços de lazer e convivência comunitária e preservam uma paisagem que expressa a nossa identidade amazônida. No fim das contas, estamos falando da preservação do nosso pedaço do planeta”, conclui Milton.




 
 

Na curva do rio Ariri, a luta

Como a destruição da floresta ameaça um dos últimos grandes corredores ecológicos da Região Metropolitana de Belém

2 de julho de 2026

Por Lucas Freire, jornalista e membro da Pororoka


Do céu, dá para ver um rio sinuoso cercado pela mata em contraste com a cidade ao fundo, à espreita, como uma ameaça que de fato é. Com o passar dos anos, o crescimento urbano e a especulação imobiliária vem arrancando partes da floresta que protege o Ariri.


As curvas do Rio Ariri passam no limite entre os municípios de Belém e Ananindeua,  percorrendo bairros como Cabanagem, Coqueiro, Una e Parque Verde, até desaguar no Rio Maguari. Com uma bacia hidrográfica equivalente a mais de 5 mil campos de futebol em tamanho, suas águas ajudam a abastecer cerca de 300 mil moradores na capital.


O bonito Ariri é um dos últimos grandes corredores ecológicos da Região Metropolitana de Belém, e vai deixar de existir caso ninguém faça nada. 


Quase 300 mil moradores da capital paraense são abastecidos pelas águas do rio Ariri. Foto: reprodução/Lobo Drone
Quase 300 mil moradores da capital paraense são abastecidos pelas águas do rio Ariri. Foto: reprodução/Lobo Drone

As florestas protetoras das águas


A floresta que existe ao redor dos rios atua na proteção dos cursos d’água, impedindo o assoreamento (deslocamento de terra das margens para o fundo do rio), além de ajudar na retenção da água das chuvas e manutenção da biodiversidade. Para gente, isso reduz os riscos de alagamentos e, de quebra, contribui para um microclima com temperaturas mais amenas. 


No caso do Ariri, atualmente só restam 31% desta floresta protetora. Quem mora na região há muitos anos, sabe que o desaparecimento das árvores é o prenúncio do fim do próprio rio, como explica  Milton Pinheiro, presidente do Instituto Ariri Vivo:


"Vivo a realidade daquele entorno desde o início dos anos 1980. Hoje, apenas cerca de 31% da cobertura vegetal original daquela área permanece preservada. Se continuarmos agredindo o rio Ariri da forma como estamos fazendo, com a expansão do setor imobiliário, ou mesmo com a incidência da própria população sobre o rio, ele corre o risco de acabar”.


Milton Pinheiro, presidente do Instituto Ariri Vivo, teme que, apesar dos esforços de preservação destinados pela comunidade à bacia do Ariri, o avanço de fatores como a especulação imobiliária faça com que o rio possa secar. Foto: reprodução
Milton Pinheiro, presidente do Instituto Ariri Vivo, teme que, apesar dos esforços de preservação destinados pela comunidade à bacia do Ariri, o avanço de fatores como a especulação imobiliária faça com que o rio possa secar. Foto: reprodução

Para Milton, a redução da floresta preocupa porque compromete a capacidade da bacia de desempenhar funções ambientais fundamentais para a cidade, principalmente no que diz respeito aos efeitos das mudanças climáticas, como chuvas e calor intensos.


“A ciência já demonstrou que áreas verdes urbanas são uma das ferramentas mais eficientes para reduzir os efeitos das ilhas de calor, melhorar a qualidade do ar e aumentar a resiliência das cidades diante das mudanças climáticas. A manutenção das árvores e florestas urbanas pode reduzir significativamente as temperaturas locais, além de contribuir para a absorção das águas da chuva e para a captura de carbono.”, continua.


Árvores diminuem temperatura em até 10°C


Não é só às margens do Ariri que as árvores correm risco. Um levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) mostrou que apenas 39,6% da capital paraense possui cobertura vegetal, enquanto extensas áreas urbanizadas sofrem com temperaturas significativamente mais elevadas. Em alguns bairros, a diferença térmica em relação às áreas florestadas pode chegar a 10°C.


Para preparar a cidade para a COP 30, o maior evento do planeta sobre Mudanças Climáticas realizado em Belém no ano passado, o governo do Estado devastou duas importantes áreas de mata para a abertura da Avenida Liberdade e Nova Rua da Marinha. Não foi visto, no entanto, o plantio de novas árvores nos locais ou em bairros com pouca arborização na mesma proporção do que foi retirado. O que era solução, pode trazer ainda mais problemas, como explica o professor André Farias, integrante do Núcleo de Meio Ambiente da UFPA.


“A situação atual das áreas verdes da região metropolitana de Belém é bastante preocupante, e não há, ainda, políticas públicas efetivas para tratar esse conjunto de áreas verdes que ainda permanecem na região metropolitana, comprometendo, assim, não apenas a conservação da biodiversidade, mas também a capacidade da cidade de responder aos eventos extremos cada vez mais frequentes”.


Para o professor André Farias, da UFPA, a falta de políticas públicas de preservação das áreas verdes urbanas compromete a capacidade da capital de responder aos eventos climáticos extremos. Foto: reprodução
Para o professor André Farias, da UFPA, a falta de políticas públicas de preservação das áreas verdes urbanas compromete a capacidade da capital de responder aos eventos climáticos extremos. Foto: reprodução

Na curva do Ariri, a luta


É neste contexto que a mobilização popular pela preservação das florestas e rios se faz ainda mais necessária. Há mais de 40 anos, Milton Pinheiro se dedica à proteção da bacia hidrográfica do Ariri e à criação do Parque Ariri, iniciativa que busca transformar o território em Área de Proteção Ambiental (APA) na parte que fica em Belém, complementando as proteções ambientais que já existem no município de Ananindeua.


“A criação do Parque Ariri permitiria proteger áreas de floresta e várzea fundamentais para a manutenção dos serviços ecossistêmicos da região. Também abriria espaço para o desenvolvimento de atividades de educação ambiental, turismo de base comunitária, pesquisa científica, esportes náuticos e lazer para a população”, explica Milton.


Mesmo existindo previsão legal para preservação das áreas verdes da capital, ainda é preciso superar a omissão do próprio Poder Público. 


"Desde 2008, o Plano Diretor Urbano de Belém prevê diversas áreas de florestas urbanas, mas muitas delas ainda não saíram do papel. É preciso que haja interesse e ação do poder público para que estes instrumentos sejam postos em prática e para que as comunidades tornem visíveis suas florestas urbanas remanescentes”.


Olhar para o Rio Ariri é reconhecer que o enfrentamento da crise climática deve acontecer nos territórios urbanos também. Cuidar dos mananciais que abastecem Belém, preservar as florestas que resistem dentro da metrópole e fortalecer políticas públicas voltadas à proteção ambiental são medidas urgentes para construir uma cidade mais saudável, segura e preparada para os desafios do presente e do futuro.


"Essas áreas são fundamentais para enfrentar a crise climática: ajudam a regular a temperatura, absorvem a água das chuvas, oferecem espaços de lazer e convivência comunitária e preservam uma paisagem que expressa a nossa identidade amazônida. No fim das contas, estamos falando da preservação do nosso pedaço do planeta”, conclui Milton.




Artigos Recentes:
AMAZÔNIA

O que já sabemos sobre o Data Center em Belém?

AMAZÔNIA

O que acontece quando jornalistas da Amazônia são silenciados?

AMAZÔNIA

Por cidades mais verdes: baixe o manual comunitário do jardineiro urbano

AMAZÔNIA

“Vale a pena continuar plantando?”: comunidades convivem com medo e incerteza enquanto aterros avançam no Baixo Acará

onda.gif
bottom of page