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  • Foto do escritor: Lucas Freire
    Lucas Freire
  • há 11 horas
  • 7 min de leitura

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


É dia de semana, mas nenhuma canoa saiu para pescar na comunidade de Água Boa, no município de Salvaterra. As embarcações continuam na areia. Ao lado delas, as redes permanecem estendidas, esperando o momento de voltar ao rio. Lucivaldo Santos caminha entre elas com sentimento de nostalgia, de uma época que parece cada vez mais difícil de voltar a ser como era antes. "Hoje é dia de trabalho, mas não tem peixe. Se tivesse peixe, estava todo mundo lá", diz o pescador.


Grandes embarcações passam diariamente pela Baía do Marajó, um fluxo de navios que se intensificou principalmente nos últimos 10 anos. Nas margens, comunidades pesqueiras como Água Boa dependem dessas mesmas águas para pescar e garantir o sustento das famílias. Agora, os moradores acompanham o avanço dos projetos de exploração de petróleo na região e temem novos impactos sobre um território que já enfrenta mudanças na pesca.


As redes vazias são o sinal de um rio que não é mais o mesmo, alterado pelo alto fluxo de embarcações ligadas à exploração de petróleo no Marajó. Foto: reprodução
As redes vazias são o sinal de um rio que não é mais o mesmo, alterado pelo alto fluxo de embarcações ligadas à exploração de petróleo no Marajó. Foto: reprodução

Os peixes desapareceram


Era de noite que Lucivaldo Santos encontrava maior abundância de peixe, mas hoje tem receio de cruzar com as grandes embarcações e não ser visto. "A gente não pode mais tá arredando o pé para sair para pescar de noite. Navio passa toda hora, de noite e de dia. Eles não respeitam ninguém. Passam por cima da rede da gente, levam tudo. A gente já vai só de dia. Antes o peixe dava mais à noite, mas a gente não trabalha mais por causa disso", conta Lucivaldo.


A distância não esconde a ameaça que os navios trazem ao ecossistema e à atividade pesqueira de diversas comunidades tradicionais. Foto: reprodução
A distância não esconde a ameaça que os navios trazem ao ecossistema e à atividade pesqueira de diversas comunidades tradicionais. Foto: reprodução

De longe, os navios parecem silenciosos. Dentro da água, o barulho é outro. Lucivaldo diz que o estrondo afasta os peixes. "Mergulha aqui na beira quando o navio passa. Você vê a zoada que faz dentro d'água. Você acha que o peixe vai ficar? Não fica. Vai embora", explica Lucivaldo.


Moacir Brasil também começou a pescar cedo, aos 13 anos. Hoje, aos 54, diz que encontrar peixe exige viagens cada vez mais longas, mais combustível e muito mais tempo longe de casa. A transformação das águas aumenta a preocupação de quem depende exclusivamente da pesca para sustentar a família.


"Eu estudei até a quinta série. Não aprendi outra profissão. A pesca foi a minha vida. Comecei na pesca e quero terminar nela, se Deus quiser. Quero chegar até a aposentadoria pescando. Mas, essa possibilidade assusta. Se de repente acabar o peixe, fica complicado. Eu não sei fazer outra coisa", conta o pescador.


Moacir cresceu viveu uma vida inteira como pescador no Marajó, e a possibilidade de ver seu ofício acabar por conta da exploração de petróleo na área o assusta. Foto: reprodução
Moacir cresceu viveu uma vida inteira como pescador no Marajó, e a possibilidade de ver seu ofício acabar por conta da exploração de petróleo na área o assusta. Foto: reprodução

A mudança também pode ser contada pelas espécies que desapareceram. A pescada amarela e a pescada branca são cada vez mais raras nas redes. A dourada quase sumiu da região. Entre as espécies que ainda sustentam parte da atividade pesqueira, restam principalmente o bagre e a piramutaba.


A fartura que marcou a infância da atual geração de pescadores deu lugar a uma rotina de incertezas. "Julho era uma época em que dava muito peixe. Hoje, a gente amarga jogando rede, puxando rede, e às vezes não pega nem um peixe para comer", lamenta Lucivaldo.


"Eu pesquei segunda, terça e quarta. Fiz R$ 152. Comprei R$ 40 de gasolina, dividi com o parceiro e não deu para comprar um quilo de carne. Aí dá para sustentar a família? Não dá", complementa Moacir.


Agora, o peixe vem de Belém


As mudanças também chegaram ao comércio de Água Boa. Durante anos, os barraqueiros que trabalhavam na praia compravam ali mesmo o peixe desembarcado pelos pescadores. O pescado saía das embarcações, atravessava poucos metros de areia e abastecia as barracas montadas na orla. Hoje, esse caminho se inverteu.


Jaqueline conta que a presença de grandes embarcações no Marajó inverteu o fluxo dos rios para muitos barraqueiros locais, que agora precisam se deslocar até a capital para garantir seu pescado. Foto: reprodução
Jaqueline conta que a presença de grandes embarcações no Marajó inverteu o fluxo dos rios para muitos barraqueiros locais, que agora precisam se deslocar até a capital para garantir seu pescado. Foto: reprodução

"Antigamente, no mês de julho, era um período de muito peixe. Os barraqueiros da praia compravam o pescado aqui mesmo, dentro da comunidade, para vender. Hoje eles precisam buscar peixe em Belém. Já pensou? É como se tudo tivesse se invertido. Uma coisa que era nossa, hoje a gente precisa pagar para os outros trazerem", explica Jaqueline Gonçalves, filha de pescadores. 


Sem rede para pescar


Antes de pensar na próxima viagem, muitos pescadores precisam passar dias consertando as redes de pesca destruídas pelos navios. Em um dos barracões da comunidade, Seu Moacir segura um cabo rompido enquanto mostra o que restou de uma das redes.  "Olha o cabo. Fora o pano, leva tudinho. Quem paga é o dono. Ninguém paga. A gente já está há quatro dias só consertando isso. Vai levar mais uns quatro. Sem pescar".


Redes rasgadas e utensílios danificados pelo trânsito de grandes embarcações prejudicam a atividade dos pescadores artesanais do Marajó. Foto: reprodução
Redes rasgadas e utensílios danificados pelo trânsito de grandes embarcações prejudicam a atividade dos pescadores artesanais do Marajó. Foto: reprodução

Remendar a rede nunca foi novidade para quem vive da pesca artesanal, mas Marlon Sousa afirma que o tempo dedicado a esse trabalho aumentou, pela extensão dos estragos causados. "A gente precisa pagar pessoas para costurar as redes e não tem nenhum retorno por parte desses navios. Antes, eram poucos dias fazendo esse serviço. Agora a gente para dez, quinze dias só costurando rede. Antigamente isso não acontecia com tanta frequência. Também não precisava usar essa quantidade de rede que a gente usa hoje", conta o pescador.


Quem conserta as redes, sem nenhum retorno por parte das grandes embarcações, são os pescadores artesanais, que veem o tempo dentro dos rios para garantir seu sustento diminuir. Foto: reprodução
Quem conserta as redes, sem nenhum retorno por parte das grandes embarcações, são os pescadores artesanais, que veem o tempo dentro dos rios para garantir seu sustento diminuir. Foto: reprodução

“Como a gente iria viver?”


Água Boa fica a cerca de 22 quilômetros do centro de Salvaterra. Ali, crescer em uma família de pescadores significa aprender desde cedo que o alimento e a renda da casa dependem do rio. Jaqueline Gonçalves, de 26 anos, cresceu ouvindo histórias de uma época em que o pai voltava para casa com o barco carregado e o peixe abastecia tanto a família quanto as barracas montadas na praia.


"O meu pai pesca desde os oito anos de idade. Antigamente, tinha muito peixe, era uma época de abundância. Hoje, ele sai triste, desmotivado. Gasta combustível para ir pescar e, muitas vezes, não tem retorno. Os peixes já não estão mais aqui como antes. Eles estão cada vez mais longe", afirma Jaqueline.


Na praia, um olho d'água continua brotando a poucos metros da Baía do Marajó toda a vez que a maré enche, atendendo as necessidades dos moradores quando o sistema de abastecimento falha. É água que serve para beber e para cozinhar.


"O Marajó é um lugar muito acolhedor. O que nós temos aqui é uma riqueza muito importante e eu tenho muito orgulho de morar aqui. Se a gente não pudesse mais usar essa praia, seria muito difícil. Nós vivemos da pesca. Como é que a gente iria viver?", questiona.


Gisele teme a chegada de uma realidade onde as águas do Marajó não estejam mais disponíveis para as comunidades locais. Foto: reprodução
Gisele teme a chegada de uma realidade onde as águas do Marajó não estejam mais disponíveis para as comunidades locais. Foto: reprodução

Um futuro imposto


As mudanças que a comunidade Água Boa vem sentindo fizeram surgir um sentimento de incerteza quanto ao futuro. A Jaqueline não sabe se os dois filhos pequenos terão as mesmas lembranças que ela: um território cuja vida sempre foi coletivamente organizada pelos rios. 


Marlon, que pesca desde os dez anos e seguiu na profissão por escolha própria, não sabe se o filho vai compartilhar do seu caminho. 


"A pesca é um trabalho que exige muito da gente. Hoje já mudou um pouco por causa da modernização, mas ainda é um trabalho pesado. Antigamente era muito mais braçal. Ainda tem gente que trabalha com muita força. Mas, pensando na futura geração, no meu filho João Pedro, eu não vejo ele trabalhando nesse ramo. O que a gente passa eu não quero que ele passe. Hoje, a minha renda vem só da pesca. Se acabar a pesca, vou ter que procurar outro meio de sobreviver", afirma Marlon Sousa.


Quem decide sobre estas águas


As mudanças na rotina da pesca levaram moradores de diferentes comunidades do Marajó a organizar uma resposta coletiva. Eles começaram a construir um protocolo de consulta para definir como querem ser ouvidos pelo Estado antes da implantação de novos projetos que possam afetar ainda mais seus territórios e modos de vida. O processo reúne memórias, formas de ocupação, conhecimentos sobre as águas e acordos construídos pelas próprias comunidades.


A pergunta que orientou a construção do protocolo de consulta foi simples: quem deve decidir sobre um território onde famílias vivem da pesca há gerações?


Nelson Bastos, coordenador da Rede GTA Marajó,  acompanha essa mobilização desde o início. Pescador e liderança comunitária, ele percorre comunidades como Água Boa, Jubim, Passagem Grande, Joanes e Monsarás articulando a construção do protocolo. Para ele, a defesa do território começa pelo reconhecimento de que a vida dessas comunidades está profundamente ligada às águas e à floresta.


Nelson Bastos, da Rede GTA, auxilia na construção do protocolo de consulta das comunidades do Marajó. Foto: reprodução
Nelson Bastos, da Rede GTA, auxilia na construção do protocolo de consulta das comunidades do Marajó. Foto: reprodução

Nelson afirma que os projetos previstos para a região avançaram sem consulta às populações que vivem diretamente do território e defende que esse processo precisa ser invertido.


"Nós não fomos consultados. Não nos chamaram para perguntar se queríamos esses grandes projetos aqui. Quem tem o poder de decidir o nosso futuro somos nós. É por isso que estamos construindo o nosso protocolo de consulta", diz.


Futuro em disputa: o petróleo na foz do Amazonas


Ao longo dos encontros, pescadores, lideranças comunitárias e moradores discutem o futuro que pretendem construir para a região. Neste futuro, está a possibilidade de exploração de petróleo na foz do Amazonas. 


Enquanto estudos apresentados pelas empresas indicam que um eventual vazamento não atingiria o arquipélago, os pescadores afirmam com base na experiência acumulada ao longo de décadas nas águas da região que a Baía do Marajó é vulnerável. 


"Dizem que a gente não estudou e que não conhece a parte técnica. Mas nós conhecemos o vento, a maré, as correntes. Esse conhecimento nós adquirimos na prática. Quando uma boia arrebenta lá no Oiapoque, ela aparece nas praias do Marajó. Se a corrente fosse só para o norte, como dizem os estudos, isso nunca aconteceria. A técnica nunca pode sobrepor a vida de quem depende dessas águas. Nós queremos ser escutados. Vocês não podem decidir pelo nosso futuro", afirma o coordenador da Rede GTA Marajó.


Ao defender que o petróleo permaneça no subsolo, Nelson afirma que a reivindicação das comunidades não se resume à oposição a um empreendimento específico. O que está em jogo, diz ele, é a continuidade de um modo de vida construído em torno das águas, da pesca e da floresta.


Documentário Território em Trânsito


A realidade vivida pelos pescadores da comunidade Água Boa foi transformada no minidocumentário “Território em Trânsito”, uma realização da Rede Grupo de Trabalhos Amazônicos (Rede GTA) e do Coletivo Pororoka.  


A obra inédita será exibida no dia 17 de agosto, durante o FOSPA. O documentário faz parte da peça de denúncia apresentada pela Rede GTA ao Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, sobre os impactos e os riscos associados ao avanço da exploração de petróleo na Amazônia.


 
 

Antes do petróleo, o silêncio das redes

No Marajó, comunidades pesqueiras enfrentam a escassez de peixes e o avanço de grandes empreendimentos enquanto reivindicam o direito de decidir sobre o próprio território

13 de agosto de 2026

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


É dia de semana, mas nenhuma canoa saiu para pescar na comunidade de Água Boa, no município de Salvaterra. As embarcações continuam na areia. Ao lado delas, as redes permanecem estendidas, esperando o momento de voltar ao rio. Lucivaldo Santos caminha entre elas com sentimento de nostalgia, de uma época que parece cada vez mais difícil de voltar a ser como era antes. "Hoje é dia de trabalho, mas não tem peixe. Se tivesse peixe, estava todo mundo lá", diz o pescador.


Grandes embarcações passam diariamente pela Baía do Marajó, um fluxo de navios que se intensificou principalmente nos últimos 10 anos. Nas margens, comunidades pesqueiras como Água Boa dependem dessas mesmas águas para pescar e garantir o sustento das famílias. Agora, os moradores acompanham o avanço dos projetos de exploração de petróleo na região e temem novos impactos sobre um território que já enfrenta mudanças na pesca.


As redes vazias são o sinal de um rio que não é mais o mesmo, alterado pelo alto fluxo de embarcações ligadas à exploração de petróleo no Marajó. Foto: reprodução
As redes vazias são o sinal de um rio que não é mais o mesmo, alterado pelo alto fluxo de embarcações ligadas à exploração de petróleo no Marajó. Foto: reprodução

Os peixes desapareceram


Era de noite que Lucivaldo Santos encontrava maior abundância de peixe, mas hoje tem receio de cruzar com as grandes embarcações e não ser visto. "A gente não pode mais tá arredando o pé para sair para pescar de noite. Navio passa toda hora, de noite e de dia. Eles não respeitam ninguém. Passam por cima da rede da gente, levam tudo. A gente já vai só de dia. Antes o peixe dava mais à noite, mas a gente não trabalha mais por causa disso", conta Lucivaldo.


A distância não esconde a ameaça que os navios trazem ao ecossistema e à atividade pesqueira de diversas comunidades tradicionais. Foto: reprodução
A distância não esconde a ameaça que os navios trazem ao ecossistema e à atividade pesqueira de diversas comunidades tradicionais. Foto: reprodução

De longe, os navios parecem silenciosos. Dentro da água, o barulho é outro. Lucivaldo diz que o estrondo afasta os peixes. "Mergulha aqui na beira quando o navio passa. Você vê a zoada que faz dentro d'água. Você acha que o peixe vai ficar? Não fica. Vai embora", explica Lucivaldo.


Moacir Brasil também começou a pescar cedo, aos 13 anos. Hoje, aos 54, diz que encontrar peixe exige viagens cada vez mais longas, mais combustível e muito mais tempo longe de casa. A transformação das águas aumenta a preocupação de quem depende exclusivamente da pesca para sustentar a família.


"Eu estudei até a quinta série. Não aprendi outra profissão. A pesca foi a minha vida. Comecei na pesca e quero terminar nela, se Deus quiser. Quero chegar até a aposentadoria pescando. Mas, essa possibilidade assusta. Se de repente acabar o peixe, fica complicado. Eu não sei fazer outra coisa", conta o pescador.


Moacir cresceu viveu uma vida inteira como pescador no Marajó, e a possibilidade de ver seu ofício acabar por conta da exploração de petróleo na área o assusta. Foto: reprodução
Moacir cresceu viveu uma vida inteira como pescador no Marajó, e a possibilidade de ver seu ofício acabar por conta da exploração de petróleo na área o assusta. Foto: reprodução

A mudança também pode ser contada pelas espécies que desapareceram. A pescada amarela e a pescada branca são cada vez mais raras nas redes. A dourada quase sumiu da região. Entre as espécies que ainda sustentam parte da atividade pesqueira, restam principalmente o bagre e a piramutaba.


A fartura que marcou a infância da atual geração de pescadores deu lugar a uma rotina de incertezas. "Julho era uma época em que dava muito peixe. Hoje, a gente amarga jogando rede, puxando rede, e às vezes não pega nem um peixe para comer", lamenta Lucivaldo.


"Eu pesquei segunda, terça e quarta. Fiz R$ 152. Comprei R$ 40 de gasolina, dividi com o parceiro e não deu para comprar um quilo de carne. Aí dá para sustentar a família? Não dá", complementa Moacir.


Agora, o peixe vem de Belém


As mudanças também chegaram ao comércio de Água Boa. Durante anos, os barraqueiros que trabalhavam na praia compravam ali mesmo o peixe desembarcado pelos pescadores. O pescado saía das embarcações, atravessava poucos metros de areia e abastecia as barracas montadas na orla. Hoje, esse caminho se inverteu.


Jaqueline conta que a presença de grandes embarcações no Marajó inverteu o fluxo dos rios para muitos barraqueiros locais, que agora precisam se deslocar até a capital para garantir seu pescado. Foto: reprodução
Jaqueline conta que a presença de grandes embarcações no Marajó inverteu o fluxo dos rios para muitos barraqueiros locais, que agora precisam se deslocar até a capital para garantir seu pescado. Foto: reprodução

"Antigamente, no mês de julho, era um período de muito peixe. Os barraqueiros da praia compravam o pescado aqui mesmo, dentro da comunidade, para vender. Hoje eles precisam buscar peixe em Belém. Já pensou? É como se tudo tivesse se invertido. Uma coisa que era nossa, hoje a gente precisa pagar para os outros trazerem", explica Jaqueline Gonçalves, filha de pescadores. 


Sem rede para pescar


Antes de pensar na próxima viagem, muitos pescadores precisam passar dias consertando as redes de pesca destruídas pelos navios. Em um dos barracões da comunidade, Seu Moacir segura um cabo rompido enquanto mostra o que restou de uma das redes.  "Olha o cabo. Fora o pano, leva tudinho. Quem paga é o dono. Ninguém paga. A gente já está há quatro dias só consertando isso. Vai levar mais uns quatro. Sem pescar".


Redes rasgadas e utensílios danificados pelo trânsito de grandes embarcações prejudicam a atividade dos pescadores artesanais do Marajó. Foto: reprodução
Redes rasgadas e utensílios danificados pelo trânsito de grandes embarcações prejudicam a atividade dos pescadores artesanais do Marajó. Foto: reprodução

Remendar a rede nunca foi novidade para quem vive da pesca artesanal, mas Marlon Sousa afirma que o tempo dedicado a esse trabalho aumentou, pela extensão dos estragos causados. "A gente precisa pagar pessoas para costurar as redes e não tem nenhum retorno por parte desses navios. Antes, eram poucos dias fazendo esse serviço. Agora a gente para dez, quinze dias só costurando rede. Antigamente isso não acontecia com tanta frequência. Também não precisava usar essa quantidade de rede que a gente usa hoje", conta o pescador.


Quem conserta as redes, sem nenhum retorno por parte das grandes embarcações, são os pescadores artesanais, que veem o tempo dentro dos rios para garantir seu sustento diminuir. Foto: reprodução
Quem conserta as redes, sem nenhum retorno por parte das grandes embarcações, são os pescadores artesanais, que veem o tempo dentro dos rios para garantir seu sustento diminuir. Foto: reprodução

“Como a gente iria viver?”


Água Boa fica a cerca de 22 quilômetros do centro de Salvaterra. Ali, crescer em uma família de pescadores significa aprender desde cedo que o alimento e a renda da casa dependem do rio. Jaqueline Gonçalves, de 26 anos, cresceu ouvindo histórias de uma época em que o pai voltava para casa com o barco carregado e o peixe abastecia tanto a família quanto as barracas montadas na praia.


"O meu pai pesca desde os oito anos de idade. Antigamente, tinha muito peixe, era uma época de abundância. Hoje, ele sai triste, desmotivado. Gasta combustível para ir pescar e, muitas vezes, não tem retorno. Os peixes já não estão mais aqui como antes. Eles estão cada vez mais longe", afirma Jaqueline.


Na praia, um olho d'água continua brotando a poucos metros da Baía do Marajó toda a vez que a maré enche, atendendo as necessidades dos moradores quando o sistema de abastecimento falha. É água que serve para beber e para cozinhar.


"O Marajó é um lugar muito acolhedor. O que nós temos aqui é uma riqueza muito importante e eu tenho muito orgulho de morar aqui. Se a gente não pudesse mais usar essa praia, seria muito difícil. Nós vivemos da pesca. Como é que a gente iria viver?", questiona.


Gisele teme a chegada de uma realidade onde as águas do Marajó não estejam mais disponíveis para as comunidades locais. Foto: reprodução
Gisele teme a chegada de uma realidade onde as águas do Marajó não estejam mais disponíveis para as comunidades locais. Foto: reprodução

Um futuro imposto


As mudanças que a comunidade Água Boa vem sentindo fizeram surgir um sentimento de incerteza quanto ao futuro. A Jaqueline não sabe se os dois filhos pequenos terão as mesmas lembranças que ela: um território cuja vida sempre foi coletivamente organizada pelos rios. 


Marlon, que pesca desde os dez anos e seguiu na profissão por escolha própria, não sabe se o filho vai compartilhar do seu caminho. 


"A pesca é um trabalho que exige muito da gente. Hoje já mudou um pouco por causa da modernização, mas ainda é um trabalho pesado. Antigamente era muito mais braçal. Ainda tem gente que trabalha com muita força. Mas, pensando na futura geração, no meu filho João Pedro, eu não vejo ele trabalhando nesse ramo. O que a gente passa eu não quero que ele passe. Hoje, a minha renda vem só da pesca. Se acabar a pesca, vou ter que procurar outro meio de sobreviver", afirma Marlon Sousa.


Quem decide sobre estas águas


As mudanças na rotina da pesca levaram moradores de diferentes comunidades do Marajó a organizar uma resposta coletiva. Eles começaram a construir um protocolo de consulta para definir como querem ser ouvidos pelo Estado antes da implantação de novos projetos que possam afetar ainda mais seus territórios e modos de vida. O processo reúne memórias, formas de ocupação, conhecimentos sobre as águas e acordos construídos pelas próprias comunidades.


A pergunta que orientou a construção do protocolo de consulta foi simples: quem deve decidir sobre um território onde famílias vivem da pesca há gerações?


Nelson Bastos, coordenador da Rede GTA Marajó,  acompanha essa mobilização desde o início. Pescador e liderança comunitária, ele percorre comunidades como Água Boa, Jubim, Passagem Grande, Joanes e Monsarás articulando a construção do protocolo. Para ele, a defesa do território começa pelo reconhecimento de que a vida dessas comunidades está profundamente ligada às águas e à floresta.


Nelson Bastos, da Rede GTA, auxilia na construção do protocolo de consulta das comunidades do Marajó. Foto: reprodução
Nelson Bastos, da Rede GTA, auxilia na construção do protocolo de consulta das comunidades do Marajó. Foto: reprodução

Nelson afirma que os projetos previstos para a região avançaram sem consulta às populações que vivem diretamente do território e defende que esse processo precisa ser invertido.


"Nós não fomos consultados. Não nos chamaram para perguntar se queríamos esses grandes projetos aqui. Quem tem o poder de decidir o nosso futuro somos nós. É por isso que estamos construindo o nosso protocolo de consulta", diz.


Futuro em disputa: o petróleo na foz do Amazonas


Ao longo dos encontros, pescadores, lideranças comunitárias e moradores discutem o futuro que pretendem construir para a região. Neste futuro, está a possibilidade de exploração de petróleo na foz do Amazonas. 


Enquanto estudos apresentados pelas empresas indicam que um eventual vazamento não atingiria o arquipélago, os pescadores afirmam com base na experiência acumulada ao longo de décadas nas águas da região que a Baía do Marajó é vulnerável. 


"Dizem que a gente não estudou e que não conhece a parte técnica. Mas nós conhecemos o vento, a maré, as correntes. Esse conhecimento nós adquirimos na prática. Quando uma boia arrebenta lá no Oiapoque, ela aparece nas praias do Marajó. Se a corrente fosse só para o norte, como dizem os estudos, isso nunca aconteceria. A técnica nunca pode sobrepor a vida de quem depende dessas águas. Nós queremos ser escutados. Vocês não podem decidir pelo nosso futuro", afirma o coordenador da Rede GTA Marajó.


Ao defender que o petróleo permaneça no subsolo, Nelson afirma que a reivindicação das comunidades não se resume à oposição a um empreendimento específico. O que está em jogo, diz ele, é a continuidade de um modo de vida construído em torno das águas, da pesca e da floresta.


Documentário Território em Trânsito


A realidade vivida pelos pescadores da comunidade Água Boa foi transformada no minidocumentário “Território em Trânsito”, uma realização da Rede Grupo de Trabalhos Amazônicos (Rede GTA) e do Coletivo Pororoka.  


A obra inédita será exibida no dia 17 de agosto, durante o FOSPA. O documentário faz parte da peça de denúncia apresentada pela Rede GTA ao Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, sobre os impactos e os riscos associados ao avanço da exploração de petróleo na Amazônia.


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