- Lucas Freire

- 4 de ago. de 2025
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Atualizado: 21 de ago. de 2025
Por Lucas Freire, jornalista e membro do Coletivo Pororoka
Josielma Vilhena é pescadora artesanal e vive no arquipélago do Bailique, no Amapá. A área integra a Foz do Amazonas e já sofre com a presença de hidrelétricas. Ela teme que a exploração de petróleo na região afete ainda mais o modo de vida da comunidade, caso prejudique a vida marinha, principal fonte de sustento dos moradores.
“Hoje já sofremos com o impacto das erosões em nossos rios, além da mudança no percurso das águas e no aumento das correntezas causadas pela presença dessas hidrelétricas, o que acaba afetando a vida marinha, que é o grande sustento de quem vive naquela região. Por isso tememos que, com o início da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, sofreremos ainda mais”, declarou.
Ela não está só. Entre os dias 21 e 23 de julho, a Embaixada dos Povos, em Belém (PA), realizou o “Mutirão dos Povos: a Resposta Somos Nós!”, com a proposta de pautar e organizar as estratégias e demandas dos povos amazônicos para o enfrentamento à crise climática. Uma troca entre pescadores, quilombolas, indígenas e movimentos sociais.
“Reunimos representantes de comunidades de pescadores de diversos estados da Amazônia Brasileira, como o Amapá, Pará e Rondônia, para conhecer a realidade destas comunidades diante da pauta da exploração de combustíveis fósseis na Foz do Amazonas, e discutir como essa exploração afetará estas comunidades em casos de possíveis acidentes. Por isso, este encontro serviu para que, juntos, pudéssemos buscar alternativas e estratégias de mobilização e articulação para fazer o enfrentamento a este grande projeto”, Sila Mesquita, coordenadora da Rede Grupo de Trabalhos Amazônicos (GTA) e da Embaixada dos Povos.

A Resposta Somos Nós - Para as lideranças indígenas, a campanha “A Resposta Somos Nós” é um chamado global por justiça climática e para que os povos indígenas e comunidades tradicionais tenham voz ativa na construção de soluções para a crise climática.
“Esse encontro é uma soma de forças em defesa dos territórios não só indígenas, mas de todos os territórios da bacia Amazônica, entre quilombolas, ribeirinhos e extrativistas, e também com a parceria das organizações indígenas da Amazônia Brasileira, que atuam não apenas contra a exploração de combustíveis fósseis nestes territórios, mas também pela mitigação e prevenção das mudanças climáticas que afetam estes locais”, destaca o cacique Jonas Mura, um dos coordenadores da Rede GTA.
Mas para isso, o Estado precisa garantir direitos fundamentais de demarcação e proteção das Terras Indígenas.
“O reconhecimento dos nossos povos e territórios é a verdadeira política efetiva para o enfrentamento à crise climática. No ano no qual a Amazônia vai receber a COP do clima, é importante a unidade entre os povos indígenas na luta e no enfrentamento contra qualquer tipo de exploração predatória na Amazônia”, reforça Kleber Karipuna, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

Planeta em Crise - Uma Terra derretendo sobre uma mancha de óleo foi a mensagem escolhida pelo Mutirão dos Povos. o Ato foi realizado em frente ao Hangar - Centro de Convenções, onde será instalada a Blue Zone, área onde ocorrem as negociações diplomáticas durante a COP-30. O recado não poderia ser mais claro e urgente: a exploração de petróleo, gás e outros combustíveis fósseis será o nosso fim. Já que a extração destas fontes é uma das maiores responsáveis pela emissão de gases estufa.

“A COP 30 vai ter que nos ouvir, e admitir que a resposta para a crise climática vem com o povo vivo e com a floresta em pé. Para que a floresta permaneça em pé é necessário que nós, os povos da Amazônia, permaneçamos vivos, sejamos respeitados e tenhamos nossos territórios protegidos contra a destruição causada pelas grandes empresas que querem explorar os territórios, expulsar os camponeses e destruir a natureza e nossas culturas”, afirmou Poli Soares, do MST-PA.
Carta dos Povos - O resultado final foi a construção da “Declaração do Mutirão dos Povos para a COP-30: A resposta somos nós!”, declaração política dos movimentos sociais e indígenas que demandam o reconhecimento de suas terras e direitos, titulação, proteção e fim da exploração predatória nos territórios indígenas. O documento também cita o financiamento climático direto para os povos da Amazônia e o reconhecimento do território amazônico como bem da humanidade.
“Elaboramos um documento com guias de atuação em conjunto, que se conectam com o trabalho de defesa dos territórios e de promover uma vivência harmoniosa dentro da floresta. Ele é uma junção do que pensamos, enquanto povos indígenas, junto com os movimentos sociais, para que os direitos dos povos da floresta sejam garantidos”, explica Toya Manchineri, coordenador geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB).
A Carta é assinada por 19 organizações, e será entregue à presidência da COP 30.
“Essa carta traz um clamor dos povos tradicionais, ribeirinhos, pescadores, e de todas as pessoas que vivem da terra e das águas, para que as vozes dessas comunidades sejam ouvidas pelas autoridades durante o evento, e para que nós tenhamos lugar nesta discussão importantíssima”, explica Sila Mesquita.









