Por Lucas Freire, jornalista e membro da Pororoka
Produzir arte a partir da Amazônia também é disputar quem tem o direito de contar as histórias da região. É nesse movimento que nasce “Contemporâneas: um retrato na arte amazônica”, uma exposição fotográfica que reúne o trabalho de cinco artistas paraenses e propõe um mergulho em seus mundos, memórias, corpos, territórios e imaginários.
Idealizado por Luísa Brasil, multiartista, fotógrafa e integrante do coletivo Pororoka, o projeto surgiu da necessidade de olhar e compreender como o mundo atravessa as mulheres, e como elas transformam essas experiências em criação. A proposta tem como objetivo estimular a produção artística feminina amazônica e evidenciar a potência de mulheres que fazem da arte um ato de existência e resistência.

Habituada a estar atrás das câmeras, Luísa convidou cinco fotógrafas e artistas para co-criar seus próprios mundos imagéticos. O projeto se transformou, assim, em uma espécie de expedição por bairros, ilhas, praias, praças, ateliês e bosques, com cada artista sendo seu próprio personagem.
“A ideia por trás dessa exposição foi a de entender o que provoca essas artistas a criar, e o que faz com que suas criações venham para o mundo, para sensibilizar outras pessoas. A exposição trabalha temas como o corpo e a saúde femininas, a relação do paraense com o sol e o clima, identidade e consumo”, explica Luísa.

Uma das artistas que compõem a exposição é Assucena Pereira. Vinda do teatro, ela encontrou na palhaçaria uma forma de discutir temas como a sexualização do corpo negro, o preterimento e o racismo, utilizando o riso como ferramenta de denúncia e reflexão.
“Com a minha arte, eu busco levar para a cena minhas vivências enquanto mulher preta através da arte circense. Quero comunicar, ser besta, rir e festejar, mas também denunciar e provocar reflexões. E fazer isso com o público, especialmente quando uma roda se forma na rua, torna tudo ainda mais potente, pois é nesses encontros que a arte acontece”, conta.

De objeto de pesquisa a sujeito da própria história
A presença das artistas no centro da narrativa também confronta uma lógica histórica de produção de conhecimento sobre a Amazônia: a de uma região frequentemente visitada, pesquisada e representada por pessoas de fora, enquanto seus próprios habitantes são colocados em segundo plano.
Para a atriz e dramaturga Tarsila Rosa, que também integra o projeto, assumir o protagonismo é também romper com essa lógica. Ao transformar suas experiências em matéria artística, ela desloca o olhar sobre a Amazônia e sobre as mulheres que vivem nela.
“Durante muito tempo, artistas e pesquisadores de fora vieram até a Amazônia para nos estudar e falar por nós, nos colocando apenas como objetos de pesquisa. Quando eu assumo a cena, me coloco como exemplo e uso minha própria dor para criar, quebrando essa lógica. Assim, deixo de ser um mero objeto e me torno sujeito ativo da minha própria história, que é espelho da de muitas mulheres daqui, e da minha trajetória dentro do meu território”, ela afirma.

Para Tarsila, produzir arte a partir desse território significa disputar narrativas, afirmar identidades e denunciar as desigualdades presentes na região.
“Eu vejo o processo do fazer artístico na Amazônia como uma ruptura com o silenciamento e com a passividade. Ser mulher na Amazônia é usar a nossa ancestralidade e vivências diárias para denunciar questões urgentes, como a falta de políticas de saúde para atender às nossas necessidades. Assim, podemos implementar a arte como um instrumento de denúncia política e territorial”, complementa.
Experiências da Amazônia para fora
Uma das propostas de “Contemporâneas” é romper com a ideia de que os grandes centros culturais de fora são, necessariamente, os mais importantes expoentes da arte nacional. Isso passa pelo reconhecimento dos artistas amazônidas, que são muitas vezes reduzidos a imagens folclóricas ou a uma ideia estereotipada da Amazônia.
Para a multiartista Alice Hermosa, a dificuldade passa justamente pela forma como artistas da região são frequentemente vistos de fora.
“Na minha experiência, sempre notei que o artista amazônico acaba sofrendo uma exclusão, por assim dizer, do restante do território brasileiro, que acaba fantasiando um folclore que, muitas das vezes, são as nossas próprias certezas”, comenta.

Por seu trabalho, que teve como objeto o efeito do calor solar na modificação dos pigmentos naturais da terra, Alice hoje compõe a equipe do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, onde ela espera poder transmitir um pouco de seu trabalho e espiritualidade.
“Poder representar a região norte foi uma grande surpresa. Até pouco tempo atrás, eu não me via com o peso de uma artista contemporânea, apesar do meu trabalho ter certa expressividade. Pra mim, é uma grande honra poder dividir essa curiosidade, essa vontade de que as pessoas possam entender mais sobre a minha terra, a minha arte e a minha espiritualidade”, celebra.
Documentário acompanha a expedição artística
Para além da exposição, o processo de criação das artistas também deu origem ao documentário Contemporâneas. A produção acompanha uma expedição fotográfica que percorreu os locais onde as artistas buscavam inspiração para construir os retratos que integram o projeto.
O filme acompanha a entrega das artistas Luísa Brasil, Alice Hermosa, Hgatadirua, Tarsila Rosa e Assucena Pereira, registrando as performances criadas a partir de suas próprias histórias, memórias, dores, ancestralidades e sonhos, utilizados como elementos que se transformam em gesto, corpo e território diante das câmeras.
Serviço
Vernissage da exposição e exibição do documentário Contemporâneas
Data: 4 de setembro
Horário: a partir das 19h
Local: Galeria Benedito Nunes, localizada na Fundação Cultural do Pará (FCP), Batista Campos, Belém-PA




