- Lucas Freire
- há 2 dias
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Por Lucas Freire, jornalista e membro da Pororoka
Corredores vazios, portas fechadas e a precarização silenciosa virou a nova rotina do Museu de Arte de Belém (MABE).
A atual gestão da prefeitura vem substituindo equipes especializadas por modelos precários de gestão, marcados pela falta de valorização profissional, pela descontinuidade das políticas públicas de cultura e pela ausência de recursos destinados à preservação do acervo cultural do município.
“Atualmente, o risco de deterioração do acervo do MABE é real, uma vez que o espaço não possui orçamento ou recursos adequados, nem equipe técnica especializada para atuar na proteção das peças expostas. Não há, por exemplo, desumidificadores, fundamentais para a conservação das obras”, lamenta um servidor ouvido pela reportagem, que não quis ser identificado.
Sobrecarga, déficit de pessoal e deterioração das condições de trabalho são resultados da reforma administrativa implementada em 2025, após a promulgação da Lei nº 10.143 extinguiu a Fundação Cultural do Município de Belém (FUMBEL), da qual o MABE fazia parte como departamento integrante.
A reforma administrativa também extinguiu cargos de direção e chefias das divisões de Conservação, Restauro e Documentação Museológica, Curadoria, Pesquisa, Expografia e Educativo do museu, deixando o espaço em situação de elevada vulnerabilidade.
A situação levou o Conselho Regional de Museologia da 1ª Região a notificar a Prefeitura de Belém e a Secretaria Municipal de Cultura por irregularidades na condução dos museus municipais, incluindo a ausência de museólogos habilitados em funções técnicas obrigatórias.
A cultura do nepotismo
O descaso com o MABE ganhou um novo capítulo quando Josias Higino da Silva Filho assumiu a presidência do museu.

Josias Filho é graduado em Matemática e sem histórico ligado à área da museologia, gestão de patrimônio histórico, artes visuais ou administração de equipamentos culturais. Sua recomendação para o cargo parece ser unicamente política: ele é filho do vereador Josias Higino (PSD), da base aliada do prefeito de Belém, Igor Normando (MDB).
Sai a Arte, entra a burocracia
Instalado no histórico Palácio Antônio Lemos, o Museu de Arte de Belém (MABE) abriga um acervo de mais de 1.900 obras e representa uma das principais referências das artes visuais na Amazônia. Criado em 1991, o espaço carrega a responsabilidade de preservar parte significativa da produção artística paraense e brasileira.
No entanto, um dos mais importantes equipamentos culturais da capital vem perdendo sua característica e se tornando meramente uma área administrativa onde funciona a prefeitura.
“O que estamos presenciando atualmente é um verdadeiro processo de desmonte do MABE. A ocupação de diversos espaços do museu por setores administrativos da Prefeitura de Belém não só gera risco de acidentes em um prédio histórico por sobrecarga elétrica, como também contribui para que o museu perca sua identidade”, explicou o servidor.
No ano passado, o espaço foi marcado pelo fechamento de áreas como o ateliê educativo, onde eram realizadas oficinas e workshops com estudantes de escolas e universidades de Belém.

Também foi fechada a Sala Armando Balloni, onde estavam expostas obras importantes da história do Pará, como “A Tragédia do Brigue Palhaço”, de Romeu Mariz Filho, e “Cabano Paraense”, de Alfredo Norfini, iconografias amplamente presentes em livros e exposições.
Segundo denúncias, os espaços teriam sido modificados para dar lugar a salas de reunião, gerando forte reação contrária de moradores da capital. O Ministério Público do Estado do Pará expediu uma recomendação para que a gestão municipal deixasse de utilizar os espaços internos do MABE para atividades burocráticas, apontando que este uso compromete a função cultural do prédio e o acesso público ao patrimônio artístico da cidade.
Após a repercussão, as salas de exposição foram devolvidas ao museu.
Cultura sob improviso e resistência
O resultado desse processo é perceptível para quem frequenta os espaços culturais da cidade. Museus operam com limitações, projetos são interrompidos, ações educativas tornam-se esporádicas e o acesso da população à cultura passa a depender de iniciativas pontuais, muitas vezes sustentadas pelo esforço individual de servidores e agentes culturais que seguem resistindo apesar da falta de estrutura.
Com isso, a cultura deixa de ser tratada como política pública permanente e passa a ser administrada sob uma lógica quase emergencial e improvisada.
Defender o Museu de Arte de Belém é também defender o direito coletivo à história, à arte e à identidade amazônica. Quando um museu é transformado em depósito administrativo, quando faltam profissionais qualificados e quando trabalhadores da cultura são empurrados para a precarização, não é apenas um prédio histórico que se deteriora, é a própria cultura que entra em colapso.







