- Lucas Freire
- 20 de ago.
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As ruas de Puyo, no Equador, foram acordadas com a marcha dos Waorani. Cada passo representa a caminhada de um povo em uma só direção: fazer valer o direito a um território livre de exploração. No caso deles, livre de petróleo.
O momento da mobilização não poderia ser mais adequado, durante o Fórum Social Pan-Amazônico, com a presença de organizações e movimentos dos nove países da região.
“Sabemos que essa luta não é algo que apenas o povo Waorani possa travar se quisermos garanti-la para a próxima geração. Precisamos nos unir e nos fortalecer mutuamente, como irmãos e irmãs. É por isso que faço um chamado, em nome da nação Waorani e como povo da bacia amazônica, para que nos unamos em defesa do nosso território”.

Em agosto 2023, o Equador perguntou aos seus cidadãos, em um referendo: “Você concorda que o governo equatoriano deveria manter os campos de petróleo de ITT, conhecidos como Bloco 43, indefinidamente no subsolo?”
Mais de 18 milhões de equatorianos, o equivalente a quase 60% da população do país, responderam “sim” à pergunta. A decisão tem força de lei e proteje o Parque Nacional Yasuní, onde vivem os Waorani e também os povos Tagaeri e os Taromenane, considerados os últimos em isolamento voluntário do Equador.
Os próprios Waorani só estabeleceram contato a partir da década de 1950. Mesmo assim, eles continuam vivendo das terras, rios e florestas em profunda conexão com a natureza, como explicou Nemo Guiquita, representante da Organização Nacional dos Povos Indígenas (Conaie)
“O Yasuní é um território sagrado para nós, é a terra dos nosso ancestrais, a terra de nossos espíritos. Ao Yasuní, deve-se respeitar. Hoje, nós, filhos do Yasuní, estamos aqui exigindo que se feche o bloco 43”, conta Nemo.

O Parque Yasuní está localizado na Amazônia equatoriana, entre as províncias de Orellana e Pastaza. São mais de um milhão de hectares de muita biodiversidade, com 598 espécies de aves, 169 tipos de mamíferos e mais de duas mil espécies de plantas, por exemplo. Na contramão de tudo isso, a exploração de petróleo na região, que ocorre desde 2016 com histórico de vazamentos.
Nesta quinta-feira nublada, 20 de agosto de 2026, completam-se três anos da votação que decidiu encerrar a exploração de petróleo no Parque. No entanto, o governo do Equador ainda resiste em cumprir a vontade popular.

“Por isso estamos aqui, com as bases e nossos líderes diante vocês para dizer que não queremos mais petróleo em nosso território”, afirmou Nemo.
Mais de 50 mil barris de petróleo por dia continuam jorrando de 247 poços abertos no Yasuní, mesmo depois da Corte Interamericana de Direitos Humanos ter determinado, no ano passado, que o governo equatoriano descomissionasse a perfuração de petróleo no parque, além de aplicar medidas de restauração, restituição e garantias de não repetição.
“A democracia é a voz do povo, e a democracia, hoje, não está sendo cumprida pelo governo do Equador, ao não dar cumprimento à sentença, por que é uma sentença obrigatória”.

À frente da marcha, o presidente da organização Nacionalidade Waorani (Nawe), Juan Bay, levava um documento em mãos, o ofício de queixa, entregue ao governo subnacional da província de Pastaza, mas endereçado ao governo do Equador. O documento insta o país a cumprir com a sua obrigação: proteger os povos indígenas e a natureza do petróleo.
“Lembremos que os direitos não se podem vender e tampouco se negociar. Os direitos são acionados, exercidos, respeitados e demonstrados. Para que a nossa vida e a nossa luta permaneçam”, conclui Juan.









