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  • Foto do escritor: Lucas Freire
    Lucas Freire
  • 3 de ago.
  • 4 min de leitura

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Muito antes de os rios Uaçá, Curipi e Urucauá receberem esses nomes, uma grande cobra deixou o mar em busca de alimento para os seus filhotes. À medida que avançava pela terra, abriu o caminho das águas que hoje atravessam o extremo norte do Amapá.


Seus filhos seguiram por direções diferentes, formando outros rios. Um filho deu origem ao Curipi. Outro, ao Urucauá. Depois de seguir viagem, a própria cobra transformou-se no rio que passou a levar seu nome: Uaçá.


Nessa história, contada há gerações pelos povos indígenas do Oiapoque, as águas não são apenas parte da paisagem. Elas são a própria origem do território e da forma como diferentes povos aprenderam a viver nele.


O conhecimento e as histórias ancestrais abrem caminhos pelos rios da Amazônia. Arte: Lucas Negrão
O conhecimento e as histórias ancestrais abrem caminhos pelos rios da Amazônia. Arte: Lucas Negrão

Antes da BR-156 ligar as aldeias à sede do município de Oiapoque, as viagens eram feitas pelo oceano. As antigas rotas marítimas sempre conectaram os povos indígenas, e o próprio oceano é visto como uma extensão de seus territórios. 


"Os mais velhos faziam canoas resistentes e elas iam para Oiapoque, para a Guiana Francesa, para vender farinha. Meu pai fazia isso. Minha mãe fazia isso. Na época era de remo. Cinco dias, seis dias para chegar", conta Luene Karipuna, Coordenadora Executiva da Articulação dos povos e organizações indígenas do Amapá e Norte do Pará  (Apoianp).


Luene Karipuna conta que os rios tem papel central na história de seu povo. Foto: Elielson Almeida
Luene Karipuna conta que os rios tem papel central na história de seu povo. Foto: Elielson Almeida

Foi pelo mar que parte da história do povo Karipuna começou a ser reescrita, depois que seus ancestrais fugiram da violência da Cabanagem, revolta popular deflagrada em 1835 na então Província do Grão-Pará e que buscava se separar do Brasil Imperial. Foi o único levante no país em que os rebeldes de fato chegaram ao poder, até serem vencidos pelas tropas um pouco mais de um ano depois. 


Os ancestrais Karipuna encontraram, no extremo norte da Amazônia, um lugar para reconstruir a própria existência. Eles passaram pela Ilha de Maracá até o Oiapoque. Ali, foram acolhidos pelo povo Palikur, que conseguiram reconstruir uma população quase dizimada pelos conflitos.


"O povo Karipuna não morava nessa região. Nós fomos expulsos do nosso território ancestral durante a Cabanagem. Depois de passar por Maracá, navegamos até o Oiapoque, onde fomos acolhidos pelo povo Palikur. Foi aqui que conseguimos reconstruir o nosso povo", conta Luene.


Na cosmovisão indígena, rios, oceanos, florestas e até as constelações no céu são moradas dos caruanas. Esses seres espirituais orientam a relação entre as pessoas, a natureza e o território. Se os caruanas estão ameaçados, isso significa que o equilíbrio que rege a vida naquela parte do mundo também está. 


Hoje, o perigo tomou forma com o avanço da exploração de petróleo na foz do Amazonas. A possibilidade de qualquer acidente ambiental - para não mencionar os impactos certos da atividade em si, como o aumento no tráfego de navios, crescimento urbano desordenado, etc - representa para as lideranças indígenas a possibilidade do fim da existência como eles a conceberam há milênios.


“Nós não temos posse sobre o território. Nós somos parte dele. Existe um equilíbrio entre as árvores, os peixes, os animais e os seres humanos que vivem aqui. Por isso estamos há milênios cuidando desses territórios sem destruí-los. Nós entendemos que não somos superiores à natureza. Nós somos parte dela".


Embora os blocos de exploração estejam localizados no mar, fora dos limites oficialmente reconhecidos das terras indígenas, as lideranças do Oiapoque contestam essa separação. Para elas, foi o Estado que definiu onde o território terminava, sem compreender que ele está conectado a tudo ao redor: rios, manguezais, floresta e o próprio mar em questão.


"Então, quando se fala sobre o Bloco 59 e se fala sobre a exploração ultramar, é importante lembrar que, independente da distância que está o bloco, dentro ou fora do território indígena, isso já causa um impacto, porque nós não estamos mais tranquilos. Nós estamos preocupados. Nós estamos com medo", pondera Luene.


A preocupação também é pela sobrevivência nas aldeias localizadas às margens dos rios que deságuam no litoral do Amapá. Qualquer acidente no mar pode atingir um território que depende diretamente dessas águas para a pesca, a alimentação e o modo de vida das comunidades.


"A gente vive aqui nesse território e tem uma preocupação imensa de qualquer dano que venha prejudicar, porque é daqui que se tira o nosso sustento. São três rios que cortam a Terra Indígena Uaçá. Tem os lagos. Se houver um acidente lá fora, vai atingir a gente aqui dentro do território.", conta Cacique Edmilson dos Santos Oliveira, da Etnia Karipuna. 


Cacique Edmilson expressa preocupação com a segurança dos rios devido o avanço da exploração de petróleo na região do Oiapoque. Foto: Elielson Almeida
Cacique Edmilson expressa preocupação com a segurança dos rios devido o avanço da exploração de petróleo na região do Oiapoque. Foto: Elielson Almeida

No começo desta história, uma cobra saiu do mar e abriu os rios que atravessam territórios indígenas no Oiapoque. Séculos depois, são esses mesmos caminhos das águas que ajudam a preservar uma história, uma memória e uma forma de compreender o mundo em que rios, floresta, mar e pessoas nunca deixaram de fazer parte do mesmo corpo.


 
 

Os caminhos da Cobra Uaçá

Para os povos indígenas do Oiapoque, as águas contam a origem do território, conduzem a memória de um povo e revelam por que a exploração de petróleo ameaça muito mais do que o meio ambiente.

3 de agosto de 2026

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Muito antes de os rios Uaçá, Curipi e Urucauá receberem esses nomes, uma grande cobra deixou o mar em busca de alimento para os seus filhotes. À medida que avançava pela terra, abriu o caminho das águas que hoje atravessam o extremo norte do Amapá.


Seus filhos seguiram por direções diferentes, formando outros rios. Um filho deu origem ao Curipi. Outro, ao Urucauá. Depois de seguir viagem, a própria cobra transformou-se no rio que passou a levar seu nome: Uaçá.


Nessa história, contada há gerações pelos povos indígenas do Oiapoque, as águas não são apenas parte da paisagem. Elas são a própria origem do território e da forma como diferentes povos aprenderam a viver nele.


O conhecimento e as histórias ancestrais abrem caminhos pelos rios da Amazônia. Arte: Lucas Negrão
O conhecimento e as histórias ancestrais abrem caminhos pelos rios da Amazônia. Arte: Lucas Negrão

Antes da BR-156 ligar as aldeias à sede do município de Oiapoque, as viagens eram feitas pelo oceano. As antigas rotas marítimas sempre conectaram os povos indígenas, e o próprio oceano é visto como uma extensão de seus territórios. 


"Os mais velhos faziam canoas resistentes e elas iam para Oiapoque, para a Guiana Francesa, para vender farinha. Meu pai fazia isso. Minha mãe fazia isso. Na época era de remo. Cinco dias, seis dias para chegar", conta Luene Karipuna, Coordenadora Executiva da Articulação dos povos e organizações indígenas do Amapá e Norte do Pará  (Apoianp).


Luene Karipuna conta que os rios tem papel central na história de seu povo. Foto: Elielson Almeida
Luene Karipuna conta que os rios tem papel central na história de seu povo. Foto: Elielson Almeida

Foi pelo mar que parte da história do povo Karipuna começou a ser reescrita, depois que seus ancestrais fugiram da violência da Cabanagem, revolta popular deflagrada em 1835 na então Província do Grão-Pará e que buscava se separar do Brasil Imperial. Foi o único levante no país em que os rebeldes de fato chegaram ao poder, até serem vencidos pelas tropas um pouco mais de um ano depois. 


Os ancestrais Karipuna encontraram, no extremo norte da Amazônia, um lugar para reconstruir a própria existência. Eles passaram pela Ilha de Maracá até o Oiapoque. Ali, foram acolhidos pelo povo Palikur, que conseguiram reconstruir uma população quase dizimada pelos conflitos.


"O povo Karipuna não morava nessa região. Nós fomos expulsos do nosso território ancestral durante a Cabanagem. Depois de passar por Maracá, navegamos até o Oiapoque, onde fomos acolhidos pelo povo Palikur. Foi aqui que conseguimos reconstruir o nosso povo", conta Luene.


Na cosmovisão indígena, rios, oceanos, florestas e até as constelações no céu são moradas dos caruanas. Esses seres espirituais orientam a relação entre as pessoas, a natureza e o território. Se os caruanas estão ameaçados, isso significa que o equilíbrio que rege a vida naquela parte do mundo também está. 


Hoje, o perigo tomou forma com o avanço da exploração de petróleo na foz do Amazonas. A possibilidade de qualquer acidente ambiental - para não mencionar os impactos certos da atividade em si, como o aumento no tráfego de navios, crescimento urbano desordenado, etc - representa para as lideranças indígenas a possibilidade do fim da existência como eles a conceberam há milênios.


“Nós não temos posse sobre o território. Nós somos parte dele. Existe um equilíbrio entre as árvores, os peixes, os animais e os seres humanos que vivem aqui. Por isso estamos há milênios cuidando desses territórios sem destruí-los. Nós entendemos que não somos superiores à natureza. Nós somos parte dela".


Embora os blocos de exploração estejam localizados no mar, fora dos limites oficialmente reconhecidos das terras indígenas, as lideranças do Oiapoque contestam essa separação. Para elas, foi o Estado que definiu onde o território terminava, sem compreender que ele está conectado a tudo ao redor: rios, manguezais, floresta e o próprio mar em questão.


"Então, quando se fala sobre o Bloco 59 e se fala sobre a exploração ultramar, é importante lembrar que, independente da distância que está o bloco, dentro ou fora do território indígena, isso já causa um impacto, porque nós não estamos mais tranquilos. Nós estamos preocupados. Nós estamos com medo", pondera Luene.


A preocupação também é pela sobrevivência nas aldeias localizadas às margens dos rios que deságuam no litoral do Amapá. Qualquer acidente no mar pode atingir um território que depende diretamente dessas águas para a pesca, a alimentação e o modo de vida das comunidades.


"A gente vive aqui nesse território e tem uma preocupação imensa de qualquer dano que venha prejudicar, porque é daqui que se tira o nosso sustento. São três rios que cortam a Terra Indígena Uaçá. Tem os lagos. Se houver um acidente lá fora, vai atingir a gente aqui dentro do território.", conta Cacique Edmilson dos Santos Oliveira, da Etnia Karipuna. 


Cacique Edmilson expressa preocupação com a segurança dos rios devido o avanço da exploração de petróleo na região do Oiapoque. Foto: Elielson Almeida
Cacique Edmilson expressa preocupação com a segurança dos rios devido o avanço da exploração de petróleo na região do Oiapoque. Foto: Elielson Almeida

No começo desta história, uma cobra saiu do mar e abriu os rios que atravessam territórios indígenas no Oiapoque. Séculos depois, são esses mesmos caminhos das águas que ajudam a preservar uma história, uma memória e uma forma de compreender o mundo em que rios, floresta, mar e pessoas nunca deixaram de fazer parte do mesmo corpo.


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