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  • Foto do escritor: Lucas Freire
    Lucas Freire
  • 31 de jul.
  • 3 min de leitura

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Quando o besouro conhecido como Mãmã Solei aparece na floresta, ninguém pensa em espantá-lo. Em português, seu nome significa "mãe do sol" e sua chegada prenuncia que o verão está próximo e que é hora de preparar a roça para o plantio.


O besouro Mãmã Solei é um dos muitos sinais da virada do tempo e das estações. Um marcador de tempo milenar, que está ameaçado pelas mudanças climáticas. Foto: Elielson Almeida
O besouro Mãmã Solei é um dos muitos sinais da virada do tempo e das estações. Um marcador de tempo milenar, que está ameaçado pelas mudanças climáticas. Foto: Elielson Almeida

O Mãmã Solei não vem sozinho.  O canto de um pássaro, a floração de árvores, o movimento das nuvens, a direção do vento e o comportamento dos rios também orientam quando plantar, colher, pescar ou realizar rituais.


Juntos, esses sinais formam aquilo que os povos indígenas do Oiapoque chamam de marcadores do tempo, um conhecimento construído por incontáveis anos de observação da natureza. Não é crença, é ciência milenar da Amazônia. 


"Quando chega a chuva, a gente percebe que as aves se aproximam do rio, do lago. Nesse momento, a gente sabe que está chegando essa passagem do inverno para o verão. No momento da piracema também, através do peixe. Quando o peixe começa a desovar, é o momento que está chegando a chuva para nós. É através desses sinais que a gente aprende a perceber o tempo", explica Sedrick Anicá dos Santos, pesquisador indígena Karipuna.


Sedrick Anicá é um dos muitos pesquisadores do Oiapoque que luta para manter vivo um conhecimento ancestral. Foto: Elielson Almeida
Sedrick Anicá é um dos muitos pesquisadores do Oiapoque que luta para manter vivo um conhecimento ancestral. Foto: Elielson Almeida

Sedrick, da aldeia Santa Izabel, auxiliou nas pesquisas para o Livro dos Marcadores do Tempo: Pesquisas Indígenas sobre Percepções Ambientais e Mudanças Climáticas”, de autoria de 40 pesquisadores indígenas do Oiapoque na obra organizada pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepê). Uma prova de como as comunidades dialogam com o que as rodeia, a ponto de conseguirem sincronizar suas atividades ao ciclo maior da vida nos territórios.


Para Luene Karipuna, coordenadora da APOIANP, as mudanças climáticas destroem não só o meio ambiente, mas também a ligação que os povos indígenas tem com o território. Foto: Elielson Almeida
Para Luene Karipuna, coordenadora da APOIANP, as mudanças climáticas destroem não só o meio ambiente, mas também a ligação que os povos indígenas tem com o território. Foto: Elielson Almeida

"É uma conexão. Nós temos um diálogo muito próximo com a natureza. Nas observações dos nossos mais velhos, sabemos marcar quando vem a chuva, quando vem o verão, através dos insetos, das aves, do canto de uma árvore, de uma nuvem observada de uma certa forma, do pôr do sol. Tudo isso são milênios de observação, mas também de diálogo com a natureza", explica Luene Karipuna, coordenadora executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp).


Quando a natureza muda as respostas


Nos últimos anos, porém, essa previsibilidade que ajudava a organizar a vida nas aldeias começou a desaparecer. As chuvas passaram a chegar em períodos diferentes, o verão deixou de seguir o ritmo esperado. Os sinais estão embaralhados.


"Quando esse ciclo muda, você começa a ter problemas na plantação. O que era para ser verão já fica verão, chuva, verão, chuva. As plantas morrem, a gente não consegue mais plantar novamente. Então descontrola todo o relógio e a forma que nós temos o nosso calendário", conta Luene.


Nas comunidades, os indígenas continuam a ensinar as crianças a observar a floresta, ao mesmo tempo que prestam atenção às novas mensagens enviadas pela natureza. O conhecimento que servia de referência aos antepassados está prestes a se perder, pois aquele mundo está, aos poucos, deixando de existir.


"Quando as mudanças climáticas chegam, elas não destroem só o ambiente. Elas não destroem só algo que é palpável. Elas destroem esse diálogo. Elas desestruturam o diálogo dos povos com a natureza. Quando a gente não consegue mais ler ou conversar com a natureza através desses marcadores, nós não sabemos mais para onde ir. Desequilibra um ciclo cultural de diálogo, mas também um ciclo de aprendizado", ela continua.


Nos próximos meses, quando o Mãmã Solei voltar a aparecer na floresta, os povos se prepararão, como sempre o fizeram, para a chegada do verão. Como será e quanto tempo durará a estação são respostas que os Karipuna talvez tenham que interpretar de novo, por que, agora,  os marcadores do tempo sinalizam novos tempos.


"Os mais velhos sempre dizem para nós que é preciso voltar a dialogar com a natureza e observá-la com mais calma. Porque a natureza está chamando atenção, está avisando: 'isso aqui vai dar ruim. Vocês estão fazendo as coisas erradas'. Toda vez que vem um evento climático catastrófico e destrói um ambiente, é um sinal de que a natureza está nos avisando. Nós precisamos recalcular a rota", conclui Luene.

 
 

Marcadores do tempo e uma floresta que já não responde como antes

No Oiapoque, as mudanças climáticas rompem um sistema ancestral de conhecimento construído pela observação da natureza.

31 de julho de 2026

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


Quando o besouro conhecido como Mãmã Solei aparece na floresta, ninguém pensa em espantá-lo. Em português, seu nome significa "mãe do sol" e sua chegada prenuncia que o verão está próximo e que é hora de preparar a roça para o plantio.


O besouro Mãmã Solei é um dos muitos sinais da virada do tempo e das estações. Um marcador de tempo milenar, que está ameaçado pelas mudanças climáticas. Foto: Elielson Almeida
O besouro Mãmã Solei é um dos muitos sinais da virada do tempo e das estações. Um marcador de tempo milenar, que está ameaçado pelas mudanças climáticas. Foto: Elielson Almeida

O Mãmã Solei não vem sozinho.  O canto de um pássaro, a floração de árvores, o movimento das nuvens, a direção do vento e o comportamento dos rios também orientam quando plantar, colher, pescar ou realizar rituais.


Juntos, esses sinais formam aquilo que os povos indígenas do Oiapoque chamam de marcadores do tempo, um conhecimento construído por incontáveis anos de observação da natureza. Não é crença, é ciência milenar da Amazônia. 


"Quando chega a chuva, a gente percebe que as aves se aproximam do rio, do lago. Nesse momento, a gente sabe que está chegando essa passagem do inverno para o verão. No momento da piracema também, através do peixe. Quando o peixe começa a desovar, é o momento que está chegando a chuva para nós. É através desses sinais que a gente aprende a perceber o tempo", explica Sedrick Anicá dos Santos, pesquisador indígena Karipuna.


Sedrick Anicá é um dos muitos pesquisadores do Oiapoque que luta para manter vivo um conhecimento ancestral. Foto: Elielson Almeida
Sedrick Anicá é um dos muitos pesquisadores do Oiapoque que luta para manter vivo um conhecimento ancestral. Foto: Elielson Almeida

Sedrick, da aldeia Santa Izabel, auxiliou nas pesquisas para o Livro dos Marcadores do Tempo: Pesquisas Indígenas sobre Percepções Ambientais e Mudanças Climáticas”, de autoria de 40 pesquisadores indígenas do Oiapoque na obra organizada pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepê). Uma prova de como as comunidades dialogam com o que as rodeia, a ponto de conseguirem sincronizar suas atividades ao ciclo maior da vida nos territórios.


Para Luene Karipuna, coordenadora da APOIANP, as mudanças climáticas destroem não só o meio ambiente, mas também a ligação que os povos indígenas tem com o território. Foto: Elielson Almeida
Para Luene Karipuna, coordenadora da APOIANP, as mudanças climáticas destroem não só o meio ambiente, mas também a ligação que os povos indígenas tem com o território. Foto: Elielson Almeida

"É uma conexão. Nós temos um diálogo muito próximo com a natureza. Nas observações dos nossos mais velhos, sabemos marcar quando vem a chuva, quando vem o verão, através dos insetos, das aves, do canto de uma árvore, de uma nuvem observada de uma certa forma, do pôr do sol. Tudo isso são milênios de observação, mas também de diálogo com a natureza", explica Luene Karipuna, coordenadora executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp).


Quando a natureza muda as respostas


Nos últimos anos, porém, essa previsibilidade que ajudava a organizar a vida nas aldeias começou a desaparecer. As chuvas passaram a chegar em períodos diferentes, o verão deixou de seguir o ritmo esperado. Os sinais estão embaralhados.


"Quando esse ciclo muda, você começa a ter problemas na plantação. O que era para ser verão já fica verão, chuva, verão, chuva. As plantas morrem, a gente não consegue mais plantar novamente. Então descontrola todo o relógio e a forma que nós temos o nosso calendário", conta Luene.


Nas comunidades, os indígenas continuam a ensinar as crianças a observar a floresta, ao mesmo tempo que prestam atenção às novas mensagens enviadas pela natureza. O conhecimento que servia de referência aos antepassados está prestes a se perder, pois aquele mundo está, aos poucos, deixando de existir.


"Quando as mudanças climáticas chegam, elas não destroem só o ambiente. Elas não destroem só algo que é palpável. Elas destroem esse diálogo. Elas desestruturam o diálogo dos povos com a natureza. Quando a gente não consegue mais ler ou conversar com a natureza através desses marcadores, nós não sabemos mais para onde ir. Desequilibra um ciclo cultural de diálogo, mas também um ciclo de aprendizado", ela continua.


Nos próximos meses, quando o Mãmã Solei voltar a aparecer na floresta, os povos se prepararão, como sempre o fizeram, para a chegada do verão. Como será e quanto tempo durará a estação são respostas que os Karipuna talvez tenham que interpretar de novo, por que, agora,  os marcadores do tempo sinalizam novos tempos.


"Os mais velhos sempre dizem para nós que é preciso voltar a dialogar com a natureza e observá-la com mais calma. Porque a natureza está chamando atenção, está avisando: 'isso aqui vai dar ruim. Vocês estão fazendo as coisas erradas'. Toda vez que vem um evento climático catastrófico e destrói um ambiente, é um sinal de que a natureza está nos avisando. Nós precisamos recalcular a rota", conclui Luene.

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