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  • Foto do escritor: Lucas Freire
    Lucas Freire
  • 28 de jul.
  • 5 min de leitura

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


O primeiro avião partiu de Quito, no Equador, com destino a Belém (PA). Da capital paraense, mais um voo rápido até Macapá (AP). Enquanto distâncias continentais eram vencidas em poucas horas, os 500 km até o Oiapoque pareciam separar dois mundos. Foi ali, no extremo norte brasileiro, que Ramiro Ávila embarcou para se encontrar com diversas lideranças indígenas e discutir a maior ameaça desde a colonização portuguesa: a exploração de petróleo na Foz do Amazonas.


Com um caderno na mão para tomar notas, o Relator do Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza chegou com o objetivo de falar pouco e escutar mais. Bastaram alguns dias entre as comunidades para que uma pergunta surgisse: como a lei pode dialogar com povos que sempre consideraram a natureza como parte indissociável, senão superior, à própria existência humana?


"Quando você destrói um rio, é como se estivesse destruindo um braço de uma pessoa"


A frase não foi dita como metáfora nem como argumento político, mas de modo simples  durante uma das travessias pelos rios dos territórios indígenas do Oiapoque. Era a maneira como os povos explicam aquilo que, para eles, sempre foi evidente: tudo está conectado em um mesmo organismo.


"Quando você destrói um rio, é como se estivesse destruindo um braço de uma pessoa. Quando desmata uma floresta, também está retirando uma parte do nosso corpo. Tudo é conectado, é um único organismo", resume Luene Karipuna, coordenadora executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp).


A paisagem é também o que possibilita a conexão espiritual. Os caruanas são seres que habitam as águas, as árvores, o fundo do mar e orientam a relação entre pessoas, animais e território. Nesse modo de compreender o mundo, a natureza não ocupa o lugar de recurso, mas de condição para a própria vida.


Luene Karipuna, coordenadora executiva da APOIANP, acredita no equilíbrio entre todos os seres de um território como chave para protegê-lo e preservá-lo. Foto: Elielson Almeida
Luene Karipuna, coordenadora executiva da APOIANP, acredita no equilíbrio entre todos os seres de um território como chave para protegê-lo e preservá-lo. Foto: Elielson Almeida

"Nós não temos posse sobre o território. Nós somos parte dele. Existe um equilíbrio entre as árvores, os peixes, os animais e os seres humanos que vivem aqui. É por isso que estamos há milênios cuidando desses territórios sem destruí-los", afirma Luene.


É justamente aí que o debate jurídico parece mudar de direção. Enquanto o Direito procura construir instrumentos para reconhecer a personalidade jurídica a rios e florestas, o Oiapoque desafia a ir além, ou melhor, a regressar para um tempo em que o ritmo da natureza regia o comportamento humano, que correspondia em perfeita harmonia. Uma relação que ao longo de milênios foi esquecida pelo avanço tecnológico, que permitiu ao homem subjugar o que estava ao redor: animais, plantas e até cursos de rios. Para desconstruir a ideia de natureza como coisa, o Direito precisa ir até quem nunca deixou de viver a natureza como algo maior do que si próprio.


"Aqui no Brasil, percebe-se uma enorme diversidade de povos. Eles comem coisas diferentes, pensam de formas diferentes, têm origens mitológicas diferentes. Mas todos têm algo em comum: valorizam profundamente aquilo que os rodeia. Como dizem os povos indígenas, a Amazônia é sua farmácia, sua universidade, seu supermercado. Quando estamos no território, entendemos que essas outras formas de vida existem e tornam possível a própria sobrevivência".


Amazônia, a nova fronteira petrolífera


A preocupação das lideranças indígenas está concentrada na Margem Equatorial brasileira, faixa marítima que se estende por mais de 2 mil km desde a costa do Amapá até o Rio Grande do Norte. É nesta faixa que a Petrobras pretende ampliar a exploração de petróleo. 

O primeiro passo começa com o Bloco-59, na Bacia da Foz do Amazonas, uma das regiões mais biodiversas do planeta, com manguezais e recifes, e repleta de comunidades pesqueiras.


Em janeiro deste ano, um vazamento de 18 mil litros de fluídos sintéticos levou o Ministério Público Federal a pedir que a Justiça suspendesse a licença para perfuração. O MPF apontou falhas técnicas, falta de plano de emergência e ausência de Consulta Prévia, Livre e Informada aos povos indígenas.


Além disso, órgãos ambientais, especialistas  e comunidades tradicionais alertam que os possíveis vazamentos irão prejudicar de maneira irreversível um dos ecossistemas mais importantes para a vida na região e para o próprio enfrentamento às mudanças climáticas.

 

É justamente essa forma de compreender a natureza que levou o caso até o Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, que avalia se a exploração de petróleo na Foz do Amazonas pode representar uma violação dos direitos da própria natureza.


Amazônia na vanguarda de direitos


Quando o assunto é Direitos da Natureza, a Amazônia pode reivindicar para si a ideia de vanguarda que considera rios e florestas tão donos de direitos quanto nós, pessoas. Uma boa parte desse trabalho se deve a Ramiro Ávila Santamaría, um dos principais pensadores sobre o tema do mundo.


Ramiro conhece a Amazônia. Nascido no Equador, acompanhou durante anos conflitos envolvendo petróleo, povos indígenas e destruição ambiental. Foi nesse contexto que ajudou a consolidar uma das experiências mais conhecidas do mundo em Direitos da Natureza. Em 2008, durante o período em que atuou no Ministério de Justiça e Direitos Humano do Equador, o país se tornou o primeiro do mundo à incorporar o conceito à sua Constituição, reconhecendo rios, florestas, manguezais e outros ecossistemas como sujeitos de direitos.


No Oiapoque, o jurista percebeu que não era necessário explicar o que são os Direitos da Natureza, e sim criar uma linguagem jurídica que traduza essa forma de compreender o mundo de forma a ser reconhecida pelos tribunais, leis e instituições.


"Pode ser que os povos indígenas não tenham essa palavra, mas, sem dúvida alguma, eles a vivem, a sentem e a incorporam. O conteúdo é o mesmo. O que falta é uma linguagem para dialogar com outros mundos".


Ramiro Ávila Santamaria: uma vida inteira dedicada à luta pelos direitos da natureza. Foto: Elielson Almeida
Ramiro Ávila Santamaria: uma vida inteira dedicada à luta pelos direitos da natureza. Foto: Elielson Almeida

O Estado Brasileiro no banco dos réus


A denúncia contra o Estado Brasileiro foi apresentada no Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, em abril deste ano, pela Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp).


Criado em 2014, o Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza é uma iniciativa global que julga governos e empresas por violações ambientais. Suas decisões de natureza ética ajudam a construir jurisprudência sobre o tema, basear estudos e registros históricos. 


A ação sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial sustenta que a autorização para o avanço da atividade pode representar uma violação aos direitos da própria natureza e pede que o Tribunal reconheça a responsabilidade do país diante dos riscos impostos aos ecossistemas da região e aos povos indígenas.


Como relator do caso no Tribunal, Ramiro Ávila percorreu o Oiapoque antes de elaborar seu parecer, ouvindo lideranças indígenas, navegando pelos territórios e conhecendo de perto os modos de vida que a denúncia busca proteger.


Ao final, Ramiro percebeu que, talvez, o que separe o Oiapoque dos outros lugares não seja a distância física, mas uma mentalidade que pode guardar a chave para a superação da crise climática que nos assola hoje. Enquanto o capitalismo insiste em criar novas necessidades que destroem o meio ambiente, os povos indígenas mostram que uma vida plena só é possível quando tudo coexiste em equilíbrio.


"O mundo ocidental tem muito a aprender. Foi exatamente isso que aconteceu comigo nesses dias. Há muito a aprender com povos que foram desprezados, explorados e violentados. Essas histórias, esses conhecimentos e essas formas de compreender o mundo podem ajudar a salvar este planeta", conclui Ramiro.

 
 

Foz do Amazonas: quando a Natureza vai à Justiça

Os povos indígenas do Oiapoque vivem há gerações o que só agora o Direito começa a compreender: rios, florestas e manguezais têm direitos como as pessoas. Tese pode levar Estado Brasileiro ao Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza por exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

28 de julho de 2026

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


O primeiro avião partiu de Quito, no Equador, com destino a Belém (PA). Da capital paraense, mais um voo rápido até Macapá (AP). Enquanto distâncias continentais eram vencidas em poucas horas, os 500 km até o Oiapoque pareciam separar dois mundos. Foi ali, no extremo norte brasileiro, que Ramiro Ávila embarcou para se encontrar com diversas lideranças indígenas e discutir a maior ameaça desde a colonização portuguesa: a exploração de petróleo na Foz do Amazonas.


Com um caderno na mão para tomar notas, o Relator do Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza chegou com o objetivo de falar pouco e escutar mais. Bastaram alguns dias entre as comunidades para que uma pergunta surgisse: como a lei pode dialogar com povos que sempre consideraram a natureza como parte indissociável, senão superior, à própria existência humana?


"Quando você destrói um rio, é como se estivesse destruindo um braço de uma pessoa"


A frase não foi dita como metáfora nem como argumento político, mas de modo simples  durante uma das travessias pelos rios dos territórios indígenas do Oiapoque. Era a maneira como os povos explicam aquilo que, para eles, sempre foi evidente: tudo está conectado em um mesmo organismo.


"Quando você destrói um rio, é como se estivesse destruindo um braço de uma pessoa. Quando desmata uma floresta, também está retirando uma parte do nosso corpo. Tudo é conectado, é um único organismo", resume Luene Karipuna, coordenadora executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp).


A paisagem é também o que possibilita a conexão espiritual. Os caruanas são seres que habitam as águas, as árvores, o fundo do mar e orientam a relação entre pessoas, animais e território. Nesse modo de compreender o mundo, a natureza não ocupa o lugar de recurso, mas de condição para a própria vida.


Luene Karipuna, coordenadora executiva da APOIANP, acredita no equilíbrio entre todos os seres de um território como chave para protegê-lo e preservá-lo. Foto: Elielson Almeida
Luene Karipuna, coordenadora executiva da APOIANP, acredita no equilíbrio entre todos os seres de um território como chave para protegê-lo e preservá-lo. Foto: Elielson Almeida

"Nós não temos posse sobre o território. Nós somos parte dele. Existe um equilíbrio entre as árvores, os peixes, os animais e os seres humanos que vivem aqui. É por isso que estamos há milênios cuidando desses territórios sem destruí-los", afirma Luene.


É justamente aí que o debate jurídico parece mudar de direção. Enquanto o Direito procura construir instrumentos para reconhecer a personalidade jurídica a rios e florestas, o Oiapoque desafia a ir além, ou melhor, a regressar para um tempo em que o ritmo da natureza regia o comportamento humano, que correspondia em perfeita harmonia. Uma relação que ao longo de milênios foi esquecida pelo avanço tecnológico, que permitiu ao homem subjugar o que estava ao redor: animais, plantas e até cursos de rios. Para desconstruir a ideia de natureza como coisa, o Direito precisa ir até quem nunca deixou de viver a natureza como algo maior do que si próprio.


"Aqui no Brasil, percebe-se uma enorme diversidade de povos. Eles comem coisas diferentes, pensam de formas diferentes, têm origens mitológicas diferentes. Mas todos têm algo em comum: valorizam profundamente aquilo que os rodeia. Como dizem os povos indígenas, a Amazônia é sua farmácia, sua universidade, seu supermercado. Quando estamos no território, entendemos que essas outras formas de vida existem e tornam possível a própria sobrevivência".


Amazônia, a nova fronteira petrolífera


A preocupação das lideranças indígenas está concentrada na Margem Equatorial brasileira, faixa marítima que se estende por mais de 2 mil km desde a costa do Amapá até o Rio Grande do Norte. É nesta faixa que a Petrobras pretende ampliar a exploração de petróleo. 

O primeiro passo começa com o Bloco-59, na Bacia da Foz do Amazonas, uma das regiões mais biodiversas do planeta, com manguezais e recifes, e repleta de comunidades pesqueiras.


Em janeiro deste ano, um vazamento de 18 mil litros de fluídos sintéticos levou o Ministério Público Federal a pedir que a Justiça suspendesse a licença para perfuração. O MPF apontou falhas técnicas, falta de plano de emergência e ausência de Consulta Prévia, Livre e Informada aos povos indígenas.


Além disso, órgãos ambientais, especialistas  e comunidades tradicionais alertam que os possíveis vazamentos irão prejudicar de maneira irreversível um dos ecossistemas mais importantes para a vida na região e para o próprio enfrentamento às mudanças climáticas.

 

É justamente essa forma de compreender a natureza que levou o caso até o Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, que avalia se a exploração de petróleo na Foz do Amazonas pode representar uma violação dos direitos da própria natureza.


Amazônia na vanguarda de direitos


Quando o assunto é Direitos da Natureza, a Amazônia pode reivindicar para si a ideia de vanguarda que considera rios e florestas tão donos de direitos quanto nós, pessoas. Uma boa parte desse trabalho se deve a Ramiro Ávila Santamaría, um dos principais pensadores sobre o tema do mundo.


Ramiro conhece a Amazônia. Nascido no Equador, acompanhou durante anos conflitos envolvendo petróleo, povos indígenas e destruição ambiental. Foi nesse contexto que ajudou a consolidar uma das experiências mais conhecidas do mundo em Direitos da Natureza. Em 2008, durante o período em que atuou no Ministério de Justiça e Direitos Humano do Equador, o país se tornou o primeiro do mundo à incorporar o conceito à sua Constituição, reconhecendo rios, florestas, manguezais e outros ecossistemas como sujeitos de direitos.


No Oiapoque, o jurista percebeu que não era necessário explicar o que são os Direitos da Natureza, e sim criar uma linguagem jurídica que traduza essa forma de compreender o mundo de forma a ser reconhecida pelos tribunais, leis e instituições.


"Pode ser que os povos indígenas não tenham essa palavra, mas, sem dúvida alguma, eles a vivem, a sentem e a incorporam. O conteúdo é o mesmo. O que falta é uma linguagem para dialogar com outros mundos".


Ramiro Ávila Santamaria: uma vida inteira dedicada à luta pelos direitos da natureza. Foto: Elielson Almeida
Ramiro Ávila Santamaria: uma vida inteira dedicada à luta pelos direitos da natureza. Foto: Elielson Almeida

O Estado Brasileiro no banco dos réus


A denúncia contra o Estado Brasileiro foi apresentada no Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, em abril deste ano, pela Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp).


Criado em 2014, o Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza é uma iniciativa global que julga governos e empresas por violações ambientais. Suas decisões de natureza ética ajudam a construir jurisprudência sobre o tema, basear estudos e registros históricos. 


A ação sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial sustenta que a autorização para o avanço da atividade pode representar uma violação aos direitos da própria natureza e pede que o Tribunal reconheça a responsabilidade do país diante dos riscos impostos aos ecossistemas da região e aos povos indígenas.


Como relator do caso no Tribunal, Ramiro Ávila percorreu o Oiapoque antes de elaborar seu parecer, ouvindo lideranças indígenas, navegando pelos territórios e conhecendo de perto os modos de vida que a denúncia busca proteger.


Ao final, Ramiro percebeu que, talvez, o que separe o Oiapoque dos outros lugares não seja a distância física, mas uma mentalidade que pode guardar a chave para a superação da crise climática que nos assola hoje. Enquanto o capitalismo insiste em criar novas necessidades que destroem o meio ambiente, os povos indígenas mostram que uma vida plena só é possível quando tudo coexiste em equilíbrio.


"O mundo ocidental tem muito a aprender. Foi exatamente isso que aconteceu comigo nesses dias. Há muito a aprender com povos que foram desprezados, explorados e violentados. Essas histórias, esses conhecimentos e essas formas de compreender o mundo podem ajudar a salvar este planeta", conclui Ramiro.

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