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  • Foto do escritor: Lucas Freire
    Lucas Freire
  • 5 de ago.
  • 4 min de leitura

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


O Oiapoque nunca foi isolado. Durante séculos, os rios e o oceano conectaram os povos da região e sustentaram formas de vida construídas muito antes da presença do Estado na região. Porém, quem vem de fora enxerga cursos d’água, florestas e manguezais como barreiras que precisam ser vencidas.


O TERRITÓRIO DEPOIS DA ESTRADA


A geografia do Oiapoque começou a mudar ainda no século passado. A construção da BR-156, cuja obra iniciou na década de 1930, aproximou as comunidades da cidade, reduziu o tempo das viagens e transformou a relação entre as aldeias e o mundo ao redor. A estrada abriu um fluxo permanente de pessoas, veículos e interesses econômicos para a região.


Antes, rios e florestas funcionavam como barreiras naturais e dificultavam o acesso aos territórios. A estrada, no entanto, aproximou fronteiras. Foi nesse contexto que algumas comunidades passaram a se estabelecer às margens da rodovia como forma de acompanhar quem entra e quem sai do território e de tentar impedir invasões.


Antigamente, a própria natureza agia como uma barreira natural contra invasores. Hoje, as comunidades agem para preservar seus territórios. Foto: Elielson Almeida
Antigamente, a própria natureza agia como uma barreira natural contra invasores. Hoje, as comunidades agem para preservar seus territórios. Foto: Elielson Almeida

"Antes não tinha nenhuma aldeia perto. Nós viemos para cá para fiscalizar a nossa terra, para não deixar invasor entrar dentro do território", explica Luene Karipuna, coordenadora executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp).


Luene Karipuna explica como o crescimento urbano significou também o aumento nas necessidades de proteção das comunidades tradicionais do Oiapoque. Foto: Elielson Almeida
Luene Karipuna explica como o crescimento urbano significou também o aumento nas necessidades de proteção das comunidades tradicionais do Oiapoque. Foto: Elielson Almeida

Hoje, a vigilância vai muito além da BR - 156. As comunidades precisam montar frentes de defesa nos rios (por onde entram pescadores invasores) e na floresta, alvo constante de madeireiros. As ameaças vêm dos dois lados da fronteira: a brasileira e a da Guiana Francesa, país que já possui uma intensa circulação de pessoas estabelecida. 


Segundo as lideranças indígenas, a preocupação não se limita apenas ao que já acontece, mas no que pode se intensificar nos próximos anos com a chegada da atividade petroleira. Para eles, a abertura de novos acessos facilita a entrada de pessoas que não possuem relação com o território e aumenta os desafios para comunidades que já precisam dividir a vigilância entre estradas, rios e floresta.


A região do Oiapoque possui três terras indígenas reconhecidas, que hoje correspondem a mais de 500 mil hectares, ou a 22% de toda a área do município. Estas TIs são povoadas por mais de 8 mil pessoas pertencentes a quatro etnias distintas: Galibi Marworno, Karipuna, Palikur e Galibi Kali'na. Juntas, elas concentram mais de 70% da população indígena do estado do Amapá.


UM MUNICÍPIO QUE NÃO TEM PARA ONDE CRESCER


Cercado por terras indígenas, unidades de conservação e outras áreas protegidas, o Oiapoque dispõe de pouco espaço para expandir sua infraestrutura. Na prática, qualquer obra ou novo empreendimento acaba esbarrando no território de alguém. 


Foi assim quando tentaram substituir o lixão da cidade por um novo aterro sanitário - diferentes áreas foram descartadas porque possuíam algum tipo de proteção. O episódio passou a ser citado pelas lideranças indígenas como exemplo de uma realidade que tende a se repetir com a chegada de mais pessoas e negócios para se instalarem no município, atraídos pela promessa de prosperidade do petróleo.


"Somente cerca de 2% do território do município pode ser utilizado como área urbana. Todo o restante é formado por terras indígenas, unidades de conservação e outras áreas protegidas. Isso faz com que exista uma pressão constante sobre esses territórios", explica Luene Karipuna.


Antes mesmo do primeiro poço de petróleo ser perfurado, o município do Oiapoque já registrou crescimento nos últimos anos. Entre 2010 e 2025, a população do município passou de 20.509 para o número estimado de 30.786, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Oiapoque também concentra 8.088 indígenas, cerca de 17% de toda a população indígena do Amapá.


As Terras Indígenas, comunidades tradicionais e ribeirinhas, que correspondem à maior parte do território do Oiapque, são constantemente pressionadas pelo crescimento da infraestrutura urbana. Foto: Elielson Almeida
As Terras Indígenas, comunidades tradicionais e ribeirinhas, que correspondem à maior parte do território do Oiapque, são constantemente pressionadas pelo crescimento da infraestrutura urbana. Foto: Elielson Almeida

Para as lideranças indígenas, esse crescimento, somado à expectativa de expansão econômica associada ao petróleo, tende a aumentar a pressão sobre um território onde apenas uma pequena parcela está disponível para a ocupação urbana.


"Eu participei de uma reunião em que falaram que o município está se preparando para esse empreendimento. E eu fiquei pensando: se a cidade já está preocupada em como vai receber tanta gente, como vai ficar o nosso território, que está logo ao lado?", questiona o cacique Edmilson dos Santos Oliveira, também do povo Karipuna.


Para o Cacique Edmilson, o crescimento de atividades petroleiras no Oiapoque pode aumentar ainda mais a pressão sobre um território que não tem mais para onde se expandir Foto: Elielson Almeida
Para o Cacique Edmilson, o crescimento de atividades petroleiras no Oiapoque pode aumentar ainda mais a pressão sobre um território que não tem mais para onde se expandir Foto: Elielson Almeida

DESENVOLVIMENTO PARA QUEM?


Para os povos indígenas do Oiapoque, a preocupação é que a expectativa criada em torno do petróleo acelere um processo já conhecido em outras regiões da Amazônia: aumento da pressão sobre o território, crescimento das invasões e outras atividades ilegais que costumam acompanhar a chegada de grandes empreendimentos. Os lucros ficam para as empresas e a região, empobrecida. É por isso que, antes mesmo de existir uma plataforma em operação, as lideranças afirmam que o território já começou a mudar.


As lideranças também demonstram desconfiança em relação às promessas de desenvolvimento. A avaliação é de que grandes empreendimentos costumam atrair pessoas de diferentes regiões em busca de trabalho e oportunidades, enquanto as comunidades indígenas permanecem expostas aos impactos provocados pela ocupação do território.


"Eles falam que vai gerar emprego, que vai melhorar a região. Mas eu fico pensando: será que vão contratar nossos filhos? Será que vão trazer benefício para o povo indígena? A minha preocupação é que tragam os problemas para nós e o benefício fique para quem vem de fora", são alguns dos questionamentos levantados. 


A LUTA ALCANÇOU NOVOS ESPAÇOS


Atualmente, a luta por direitos vai além da defesa física do território. As lideranças indígenas dividem o seu tempo entre aldeias e espaços de negociação, onde são tomadas decisões que podem alterar o futuro da região. Reuniões, audiências, consultas e viagens se tornaram parte da rotina. 


"Eu entrei no movimento indígena ainda muito jovem. Desde então, viajo para reuniões, participo de encontros buscando melhorias para as nossas comunidades. A gente faz isso porque está lutando pelos nossos filhos, pelos nossos netos e pelas futuras gerações", explicou uma das lideranças.


 
 

A corrida pelo petróleo e o faroeste Amazônico

Abertura de estradas, invasões e crescimento urbano transformaram a região do Oiapoque em uma panela de pressão.

5 de agosto de 2026

Por Elielson Almeida, jornalista e membro da Pororoka


O Oiapoque nunca foi isolado. Durante séculos, os rios e o oceano conectaram os povos da região e sustentaram formas de vida construídas muito antes da presença do Estado na região. Porém, quem vem de fora enxerga cursos d’água, florestas e manguezais como barreiras que precisam ser vencidas.


O TERRITÓRIO DEPOIS DA ESTRADA


A geografia do Oiapoque começou a mudar ainda no século passado. A construção da BR-156, cuja obra iniciou na década de 1930, aproximou as comunidades da cidade, reduziu o tempo das viagens e transformou a relação entre as aldeias e o mundo ao redor. A estrada abriu um fluxo permanente de pessoas, veículos e interesses econômicos para a região.


Antes, rios e florestas funcionavam como barreiras naturais e dificultavam o acesso aos territórios. A estrada, no entanto, aproximou fronteiras. Foi nesse contexto que algumas comunidades passaram a se estabelecer às margens da rodovia como forma de acompanhar quem entra e quem sai do território e de tentar impedir invasões.


Antigamente, a própria natureza agia como uma barreira natural contra invasores. Hoje, as comunidades agem para preservar seus territórios. Foto: Elielson Almeida
Antigamente, a própria natureza agia como uma barreira natural contra invasores. Hoje, as comunidades agem para preservar seus territórios. Foto: Elielson Almeida

"Antes não tinha nenhuma aldeia perto. Nós viemos para cá para fiscalizar a nossa terra, para não deixar invasor entrar dentro do território", explica Luene Karipuna, coordenadora executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp).


Luene Karipuna explica como o crescimento urbano significou também o aumento nas necessidades de proteção das comunidades tradicionais do Oiapoque. Foto: Elielson Almeida
Luene Karipuna explica como o crescimento urbano significou também o aumento nas necessidades de proteção das comunidades tradicionais do Oiapoque. Foto: Elielson Almeida

Hoje, a vigilância vai muito além da BR - 156. As comunidades precisam montar frentes de defesa nos rios (por onde entram pescadores invasores) e na floresta, alvo constante de madeireiros. As ameaças vêm dos dois lados da fronteira: a brasileira e a da Guiana Francesa, país que já possui uma intensa circulação de pessoas estabelecida. 


Segundo as lideranças indígenas, a preocupação não se limita apenas ao que já acontece, mas no que pode se intensificar nos próximos anos com a chegada da atividade petroleira. Para eles, a abertura de novos acessos facilita a entrada de pessoas que não possuem relação com o território e aumenta os desafios para comunidades que já precisam dividir a vigilância entre estradas, rios e floresta.


A região do Oiapoque possui três terras indígenas reconhecidas, que hoje correspondem a mais de 500 mil hectares, ou a 22% de toda a área do município. Estas TIs são povoadas por mais de 8 mil pessoas pertencentes a quatro etnias distintas: Galibi Marworno, Karipuna, Palikur e Galibi Kali'na. Juntas, elas concentram mais de 70% da população indígena do estado do Amapá.


UM MUNICÍPIO QUE NÃO TEM PARA ONDE CRESCER


Cercado por terras indígenas, unidades de conservação e outras áreas protegidas, o Oiapoque dispõe de pouco espaço para expandir sua infraestrutura. Na prática, qualquer obra ou novo empreendimento acaba esbarrando no território de alguém. 


Foi assim quando tentaram substituir o lixão da cidade por um novo aterro sanitário - diferentes áreas foram descartadas porque possuíam algum tipo de proteção. O episódio passou a ser citado pelas lideranças indígenas como exemplo de uma realidade que tende a se repetir com a chegada de mais pessoas e negócios para se instalarem no município, atraídos pela promessa de prosperidade do petróleo.


"Somente cerca de 2% do território do município pode ser utilizado como área urbana. Todo o restante é formado por terras indígenas, unidades de conservação e outras áreas protegidas. Isso faz com que exista uma pressão constante sobre esses territórios", explica Luene Karipuna.


Antes mesmo do primeiro poço de petróleo ser perfurado, o município do Oiapoque já registrou crescimento nos últimos anos. Entre 2010 e 2025, a população do município passou de 20.509 para o número estimado de 30.786, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Oiapoque também concentra 8.088 indígenas, cerca de 17% de toda a população indígena do Amapá.


As Terras Indígenas, comunidades tradicionais e ribeirinhas, que correspondem à maior parte do território do Oiapque, são constantemente pressionadas pelo crescimento da infraestrutura urbana. Foto: Elielson Almeida
As Terras Indígenas, comunidades tradicionais e ribeirinhas, que correspondem à maior parte do território do Oiapque, são constantemente pressionadas pelo crescimento da infraestrutura urbana. Foto: Elielson Almeida

Para as lideranças indígenas, esse crescimento, somado à expectativa de expansão econômica associada ao petróleo, tende a aumentar a pressão sobre um território onde apenas uma pequena parcela está disponível para a ocupação urbana.


"Eu participei de uma reunião em que falaram que o município está se preparando para esse empreendimento. E eu fiquei pensando: se a cidade já está preocupada em como vai receber tanta gente, como vai ficar o nosso território, que está logo ao lado?", questiona o cacique Edmilson dos Santos Oliveira, também do povo Karipuna.


Para o Cacique Edmilson, o crescimento de atividades petroleiras no Oiapoque pode aumentar ainda mais a pressão sobre um território que não tem mais para onde se expandir Foto: Elielson Almeida
Para o Cacique Edmilson, o crescimento de atividades petroleiras no Oiapoque pode aumentar ainda mais a pressão sobre um território que não tem mais para onde se expandir Foto: Elielson Almeida

DESENVOLVIMENTO PARA QUEM?


Para os povos indígenas do Oiapoque, a preocupação é que a expectativa criada em torno do petróleo acelere um processo já conhecido em outras regiões da Amazônia: aumento da pressão sobre o território, crescimento das invasões e outras atividades ilegais que costumam acompanhar a chegada de grandes empreendimentos. Os lucros ficam para as empresas e a região, empobrecida. É por isso que, antes mesmo de existir uma plataforma em operação, as lideranças afirmam que o território já começou a mudar.


As lideranças também demonstram desconfiança em relação às promessas de desenvolvimento. A avaliação é de que grandes empreendimentos costumam atrair pessoas de diferentes regiões em busca de trabalho e oportunidades, enquanto as comunidades indígenas permanecem expostas aos impactos provocados pela ocupação do território.


"Eles falam que vai gerar emprego, que vai melhorar a região. Mas eu fico pensando: será que vão contratar nossos filhos? Será que vão trazer benefício para o povo indígena? A minha preocupação é que tragam os problemas para nós e o benefício fique para quem vem de fora", são alguns dos questionamentos levantados. 


A LUTA ALCANÇOU NOVOS ESPAÇOS


Atualmente, a luta por direitos vai além da defesa física do território. As lideranças indígenas dividem o seu tempo entre aldeias e espaços de negociação, onde são tomadas decisões que podem alterar o futuro da região. Reuniões, audiências, consultas e viagens se tornaram parte da rotina. 


"Eu entrei no movimento indígena ainda muito jovem. Desde então, viajo para reuniões, participo de encontros buscando melhorias para as nossas comunidades. A gente faz isso porque está lutando pelos nossos filhos, pelos nossos netos e pelas futuras gerações", explicou uma das lideranças.


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